Capítulo I

É mais fácil mobilizar os homens para a guerra que para a paz. Ao longo da história, a Humanidade sempre foi levada a considerar a guerra como o meio mais eficaz de resolução de conflitos, e sempre os que governaram se serviram dos breves intervalos de paz para a preparação das guerras futuras. Mas foi sempre em nome da paz que todas as guerras foram declaradas.”

José Saramago, Diário de Notícias (2009)

O primeiro sistema democrático surgiu, pela primeira vez, na Grécia Antiga, no século V a.C.. e, apesar de todas as suas limitações foi um grande marco naquilo que é a História do Homem. Avançando no tempo até antes da I Grande Guerra, que se iniciou em 1914, apenas Portugal, França e Suíça eram repúblicas, dominando contudo no restante continente europeu um regime que perdurava por séculos e séculos – um regime que passou pela Idade Média toda, pelo Renascimento e pelo Iluminismo: a Monarquia parlamentar. Foi precisamente com o fim da I Guerra Mundial que toda a Europa central e do Leste converteu-se ao regime republicano. Mas a verdade é que os regimes demoliberais foram incapazes de dar resposta às graves crises económicas que se registaram e o medo da difusão do marxismo-leninismo estava presente, o que conduziu às soluções autoritárias de extrema direita: o fascismo (desde 1922 na Itália com Mussolini) e o nazismo (desde 1923 na Alemanha com Hitler). Ainda que ambas soluções totalitárias e recorrentes da mobilização de massas, de mecanismos de terror, da militarização da sociedade e do desejo de expansionismo territorial, a verdade é que existem diferenças. Enquanto o nazismo tinha como ideal o homem (inexistente) caucasiano, que necessitava de um espaço para se expandir, o espaço vital; o fascismo via no expansionismo territorial a imagem remota do Império Romano. A II Guerra Mundial decorreu desde 1939 a 1945, em que a expansão máxima do nazismo foi até 20 Km de Moscovo, perseguindo horrorosamente judeus, homossexuais e opositores políticos. Depois da guerra, só com a criação de instituições como a NATO e as Nações Unidas, muito mais eficazes do que a SDN (Sociedade das Nações), a Europa pôde vislumbrar a paz à tanto tempo desejada, ainda que a Alemanha estivesse dividida em duas – na República Federal Alemã (RFA) e na República Democrática Alemã (RDA) – até fins da década de 80 e o próprio fim da Guerra Fria. A Guerra Fria mais não era do que um conflito caracterizado pela corrida ao armamento nuclear e a criação de áreas de influência entre os EUA e a URSS. No entretanto, na Europa, criava-se a CEE (Comunidade Económica Europeia), mais tarde denominada por União Europeia, que permitia aos países membros uma união política, económica e social. Mas toda a situação de estabilidade política modificou-se, novamente, no meu país, na Itália, nos anos 40 do presente século (século XXI).
Dia 23 de Julho de 2040. Oito horas em ponto da manhã: milhares de militares cercavam a nossa capital: Roma. A partir dessa hora mais ninguém pôde, por meios terrestres ou aéreos, entrar ou sair da cidade e, quem o tentasse via a sua vida ser retirada. Uma hora decorrida e outros tantos milhares de militares, vestidos de negro, adentravam pelas ruas a uma velocidade assustadora. Foi aí que começou a somar-se uma vítima a seguir à outra, não interessando o pormenor de serem crianças, idosos, adultos, jovens, ricos, pobres, saudáveis ou doentes. Era paradoxal como num acto tão bárbaro e irracional (ou excessivamente racional conforme queiram interpretar, porque afinal nós não vemos as outras espécies a matarem os seus sem ser por questões de instinto e de pura sobrevivência), a morte se mostrava tão igualitária. Era perverso! Onde se encontrava a sanidade desta gente? Até que ponto podia ir a maldade de uma mente perturbada?
Todas as pessoas que circulavam a pé, de bicicleta, de carro, de autocarro ou até mesmo de metro, foram brutalmente assassinadas em massa com bombas, a tiro ou outros meios rápidos e violentos. Nesse grupo gigantesco de pessoas estavam os meus pais… apenas se encontravam a caminho de mais um dia de trabalho na empresa de família. Eram dez horas e as ruas pintadas de um mar de vermelho e negro, vermelho do sangue dos corpos caídos sem vida, negro das fardas dos responsáveis. O cheiro que vinha da rua, pela janela que não tive coragem de fechar, já não era de Verão, já não era da relva dos jardins a serem regados, das flores no seu ponto máximo de beleza, das árvores de fruto… era um cheiro nauseabundo, um cheiro a morte, um cheiro que nunca pensei vir a conhecer.
Sentada no chão da sala, abraçada aos meus joelhos, com a cara escondida entre os braços cruzados, não me mexi durante horas. O meu corpo tremia tanto quanto como se estivesse a ter uma convulsão, a minha pele demasiado branca estava gelada com o medo e as lágrimas não paravam de cair pelas bochechas, pela cara… para o chão de madeira flutuante debaixo de mim. De lá de fora, ouvia os gritos, os tiros, as bombas a rebentarem, os veículos militares a circularem. Só com a noite é que todos esses barulhos pararam. Nem mais um último suspiro se ouviu…
Podia ainda não me ter levantado, mas sabia que lá fora encontraria destruição e morte. Nada seria melhor do que se os acontecimentos das últimas muitas horas fossem apenas um pesadelo, ainda que soubesse que se fechasse os olhos e os voltasse a abrir nada se alteraria. E é nestas alturas que conhecemos o verdadeiro desespero. É por estas alturas que as revoluções, guerras e conflitos da História do Homem ganham uma nova importância. É por estas alturas que os bens materiais nada são. É por estas alturas que esquecemos a raiva que sentimos de manhã, porque os nossos mais queriam que fôssemos a um jantar de negócios com eles. Aos 17 anos, assisti à revolução que ficou conhecida como a “Revolução Sanguinária”.
– Boa noite, senhores e senhoras cidadãos (ãs). Como porta-voz do novo governo, irei citar algumas leis que farão parte da nova constituição, a entrar em vigor a partir de amanhã, dia 24 de Julho. 1) Nenhum cidadão poderá abandonar o país sem uma autorização breve do governo; 2) será imposta uma hora de recolher obrigatória, em funcionamento a partir das vinte e uma horas até às cinco horas da manhã; 3) será instalado um sistema de alarme em todas as casas, vivendas e prédios, para se certificar o cumprimento da lei anteriormente enunciada; 4) o direito de associação será cessado, os partidos políticos proibidos e as greves e manifestações, tais como quaisquer outros movimentos contra o governo, ilegais e puníveis. 5) Será proibida a leitura de certos documentos e livros de uma lista que será enviada por correio e e-mail; 6) o uso de redes sociais será proibido; 7) irá-se realizar uma vistoria a partir das seis horas da tarde de amanhã em todos os lares. 8) A pena de morte será reconstituída e as torturas físicas ou psicológicas permitidas; 9) todos os jovens rapazes entre os 18 e os 25 anos terão de cumprir um serviço militar obrigatório de cinco anos. Por último, o governo chefiado por Mr. Black, já comunicou a saída da Itália da união Europeia. Também é nosso objectivo informar que as limpezas das ruas decorrerão durante toda a noite e madrugada, e os corpos identificáveis entregues às respectivas famílias num espaço de uma semana. Uma boa noite a todos.”
E a televisão apagou-se tão rápido quanto quando se ligou sozinha. No meio de tantas leis, a informação retida mais importante foi a de poder reaver os corpos da minha mãe e do meu pai. Assim, podia fazer uma cerimónia fúnebre que honrasse tudo o que eles tinham sido e continuariam a ser, até ao fim da minha existência. Mesmo sabendo que, muito provavelmente, não tinham feito um testamento a descrever todas as suas vontades, porque aos 45 anos nunca se pensa que se vai falecer repentinamente, era do meu conhecimento, desde há muito tempo, que era desejo deles, por ambos terem origens irlandesas, a realização de um funeral tradicionalmente irlandês. Foi pensando nisso que me lembrei dos meus avós a viverem na Irlanda. Por certo já saberiam do sucedido e já teriam tentado contactar-me, mas também era certo que as chamadas do estrangeiro estavam a ser detectadas e impedidas de serem respondidas.
Um pouco mais calma, comecei a mexer-me muito lentamente. Primeiro descruzei os braços, depois estiquei as pernas, pousei as mãos no chão quente e com esse auxílio, levantei-me no meio de tonturas e fraqueza: não tinha bebido água e comido o dia todo. A última refeição tinha sido o pequeno-almoço, confeccionado pela doçura constante da minha mãe… e só a lembrança do meu início de dia fez-me voltar a querer voltar para a minha bola no chão, onde poderia voltar a chorar que nem uma Maria Madalena. Mas eu não o poderia fazer.
Dei uns passos até à cozinha, a luz ligou-se automaticamente. Tirei um copo de vidro do armário e um pacote de sumo de laranja do frigorífico. Enchi o copo de sumo, bebi um pequeno gole e fui procurar na dispensa uma refeição rápida. Encontrei um pacote de massa à carbonara instantâneo. Entre o espaço de tempo que o jantar não estava pronto, decidi ir fechar definitivamente a janela. Ainda não me encontrava a sequer a um metro dela quando, repetitivamente, as imagens dos corpos dos meus pais apareciam na minha mente e me levaram às lágrimas e ao desespero novamente. Com o ritmo cardíaco acelerado, a respiração descontrolada e a transpirar anormalmente – a minha resposta ao medo, à dor, à perda – avancei o metro a faltar de olhos fechados. O cheiro que anteriormente havia sentido voltou, naturalmente, em força e mais intensamente. Com a mão a tapar o nariz fechei a janela, com o comando as precianas.
No entretanto a massa ficou pronta. Desliguei o fogão eléctrico, meti o conteúdo dentro de um prato e pousei-o em cima da ilha da cozinha. Sentei-me num dos bancos altos. Aquela era a refeição mais solitária e triste que alguma vez havia tido. Faltava a voz algo jovial do meu pai a contar piadas secas, a voz da minha mãe preocupada em saber mais sobre o meu dia e a música de fundo Jazz, que eles sempre faziam questão de pôr à hora das refeições. No fim, acabei por não comer quase nada, ia enrolando a massa, mas as vezes em que de facto levei-a à boca foram poucas. Pior ainda foi na hora de me deitar, afinal aquela era a sensação da solidão, a sensação de perdermos os que mais amamos de uma hora para outra. Porém, sem dúvida que o que custava mais era saber que nas ruas, os homens vestidos de negro levavam os meus pais para um sítio que nem sabia onde. Os barulhos vindos do exterior deveriam de ser suficientemente esclarecedores. E se os anjos existissem e Deus fosse justo, a alma dos meus pais merecia o paraíso.

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