Capítulo II

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Na área da Psicanálise, Sigmund Freud já falava, no início do século XX, na interpretação dos sonhos. A interpretação dos sonhos é um método clínico em que o psicanalista pede à pessoa que lhe relate os sonhos, que seriam a realização disfarçada de desejos recalcados. Freud distinguia o conteúdo consciente do conteúdo latente: os desejos, medos e recalcamentos, maioritariamente de origem sexual. É de fazer lembrar que é Freud o primeiro a afirmar que o comportamento humano é fortemente influenciado pelo psíquico, que teria não só uma dimensão consciente, como também inconsciente. Aparte as discussões acerca da forma como a Psicanálise se baseia, a verdade era que durante o meu último ciclo de sono, o meu sonho teve tudo a ver com os acontecimentos do dia anterior, demonstrando algo bastante curioso. No sonho, apareciam os meus pais no nosso carro, no nosso Audi, a ouvir música dos anos 20. Tudo estava bem, até que aparecia um homem de negro com uma arma na mão e… e matava primeiro o meu pai com um tiro na cabeça e a minha mãe depois com um tiro no coração. Mas o sonho não ficava por aqui. Numa mudança repentina de cena, via-me numa sala escura, sem janelas, de mão e pés atados, no que parecia um interrogatório. Esta era a parte interessante. Na noite anterior, apenas tinha dado, aparentemente, importância a uma parte, porém todo o discurso havia-me perturbado mais do que tinha pensado. Estava presente o medo por todas aquelas regras e leis novas. Ainda que não novas para os meus ouvidos, porque muitas delas tinham inspirações fascistas e tínhamos dado isso a História, eram novas no meu presente, com uma agravante: um alcance muito superior. Por exemplo, a proibição da leitura de certos livros era em muito semelhante à ideia do índex implementado pela Igreja católica para travar o protestantismo. Contudo a instalação de dispositivos de alarme em cada casa, a proibição do uso de redes sociais, as câmaras nas ruas e um sistema parecido ao de escutas dos EUA, o “Big Brother”, eram exemplos de leis que atribuiriam um carácter diferente ao regime com um carácter fascista. E a propósito disso, existia uma dúvida que não parava de me atormentar. O porquê da implementação de uma ditadura no momento. A Itália vivia uma altura de estabilidade financeira, social e política, depois de no início do século ter vivido alguns anos em grandes dificuldades financeiras e de instabilidade política.

No entretanto eram 7:00 horas e nada melhor seria do que enfrentar a situação de frente. Para isso era essencial sair à rua. Para tal efeito, tomei um duche rápido, vesti um fato de treino, calcei umas meias e umas sapatilhas, escovei os dentes e fiz um rabo de cavalo alto. Antes de sair da casa agarrei nas chaves. De frente para a porta, perante a ansiedade, inspirei profundamente e libertei o ar contido pela boca audivelmente – um exercício de relaxamento. Ao final de umas oito vezes, sai de casa, atravessei o caminho de pedra do jardim da frente e olhei em volta admirada. Não vou mentir, esperava encontrar uma cidade suja, destruída. Contudo, tudo parecia normal, com excepção da falta de algumas árvores e algumas marcas de incêndio nas paredes dos prédios. Além disso, reparei que, pelo menos, a minha rua tinha um militar no início, no meio e no fim da mesma. Mesmo à minha frente parou um dos militares.

– Bom dia. O que é que a menina está a fazer a uma hora destas na rua? – O seu tom era monocórdico, aborrecido. Se juntarmos isso ao seu físico medonho: alto, muito musculado, careca, olhos castanhos escuros. – Ainda é muito cedo. Não responde?

O aumento de tom da sua voz para um mais agressivo foi o suficiente para acender o rastilho da bomba. Quem é que ele pensava que era para me pedir justificações quando ele, todos os outros militares e quem estivesse por detrás do movimento eram os grandes responsáveis pela morte dos meus pais?! Num momento para o outro perdi completamente o filtro e a noção do erro que estava a cometer.

– Foram os senhores! Foram vocês que mataram os meus pais! Como é que tem a lata de me perguntar o que é que estou a fazer? Esta resposta serve? Estou a iniciar a minha manhã sem a minha única família viva no país, depois de eles terem sido assassinados ontem a caminho do trabalho só porque um grandessíssimo estúpido se lembrou de estragar o que estava bem!

– Acalme-se ou vou ter de a levar presa!

– Acha que isso me preocupa agora? Esse tal de Mr. Black pode ir dar uma grande volta ao bilhar. É um covarde que nem sequer tem a coragem de dar a cara. Um covarde! Fique sabendo que…

– Chega! – Com um grito gutural interrompeu-me. Tentou-me agarrar pelo braço, mas eu escapei com o membro superior. – Você vem comigo!

Muito mais rapidamente e agressivamente, agarrou-me pelo braço e arrastou-me, literalmente, pela rua fora até chegarmos junto a uma carrinha preta, uma SUV. De lá de dentro saiu um outro militar, parecido com o que me agarrava, e abriu a porta. Sentaram-me no banco, colocaram-me o cinto, puseram as minhas mãos juntas à frente do corpo e colocaram-me umas algemas com um aspecto esquisito. Um deles, com um comando na mão, sorriu para mim, num sorriso torto e maléfico.

– Au! Qual é a vossa ideia? – Um choque elétrico fez-me saltar do banco e gritar de novo. A minha resposta? Bateram-me com a porta na cara a rirem-se como se o facto de ver os outros sofrer fosse prazeroso. – Vocês são todos doentes mentais!

Acabei por calar-me ao perceber que recebia um choque elétrico cada vez que abria a boca para falar.

Perdi a noção quase total do tempo. Mesmo assim, sabia que tinham de ter passado pelo menos dois dias desde que me tinham largado na sala de interrogatórios, se é que aquilo podia-se chamar aquilo. Não sabia, no entanto, se me iriam matar ou não, se aquela tortura a que estava a ser sujeita continuaria. A minha única prioridade era continuar a sobreviver com a pouca água e comida que me davam uma única vez por dia. Para satisfazer as necessidades fisiológicas havia uma porta dentro da sala com a placa “WC”, a casa de banho. Mas não tinha uma banheira onde pudesse tomar banho. Era melhor nem imaginar o meu cheiro deveria de ser tudo menos agradável. Sentia o meu cabelo a ficar oleoso, o cheiro a transpiração e as roupas a ficarem sujas.

Essa não era a pior parte. Todos os dias arranjavam novas formas de tortura: com água, com electrificação, com calor, com frio, com imagens e sons, com cheiros, com tudo o que pudesse tornar as minhas quase 24 horas num inferno na terra. Mas enquanto não me matassem de uma forma tão cruel como matavam os judeus, os homossexuais e divergentes políticos nos campos de concentração e extermínio, teria de sobreviver ao pior erro da minha vida. Deveria de me ter controlado, de ter ficado quieta e calada ou apenas ter respondido que ia fazer uma caminhada, algo normal e legal. Em vez disso, deixei a raiva vir toda ao de cima.

A porta de grandes dimensões cinza anti fuga e anti fogo foi aberta. Mesmo no escuro quase absoluto, os meus olhos levantaram-se do chão, à procura de comida e água na mão do guarda que entrou. O meu cérebro, involuntariamente, já tinha associado a porta ser aberta a alimento e hidratação. A psicologia da Aprendizagem chama isto de aprendizagem associativa, mais especificamente de Condicionamento Clássico. Foi o investigador Ivan Pavlov que, ao estudar os reflexos digestivos do cão, descobriu que, a resposta que um animal ou ser humano dá, resulta da associação de estímulos – no meu caso levantava a cabeça associando a comida e água, porque cada vez que abriam a porta era para isso. Claro que há diferenças entre o animal e nós. Enquanto o animal desaprende se a associação estímulo-resposta não for continuamente repetida, o homem não desaprende. Pois bem, aparte a Psicologia, desta vez não me traziam nem comida nem água. Se não me traziam nada, só poderia significar uma coisa: morte.

Uns segundos após a entrada do guarda, entraram mais três homens. Os primeiros dois não eram guardas, eram militares de rua. Como se viraram logo de costas para mim e de frente para o terceiro indivíduo, não pude ver o aspecto do último. Apenas sabia que era um homem anormalmente alto. Se não tinha 1,85m estava bem perto disso. Além da sua altura, havia outra coisa que o distinguia: tinha cabelo! Era o primeiro homem do novo regime que via que tinha cabelo, bem bonito por sinal. Não deveria de pensar dessa forma, mas o seu cabelo era totalmente preto e estava penteado numa popa admiravelmente perfeita.

Alguns minutos decorridos, os militares que me impossibilitavam a vista, viraram-se para mim e deslocaram-se para o lado… Meu Deus! Seria possível alguém acumular mais beleza do que aquele ser?

Em primeiro lugar, o seu rosto era o protótipo da perfeição: tez morena, barba feita, lábios carnudos e rosados, nariz moldado, olhos azuis escuros, pestanas compridas e sobrancelhas carregadas e pretas. Em segundo lugar não era excessivamente musculado: o fato preto, a camisa branca abotoada até ao último botão e a gravata de seda preta assentavam-lhe que nem uma luva. Chegando às suas expressões senti um arrepio por toda a coluna vertebral acima e braços, pondo em pé cada pelinho durante a viagem. O seu rosto não transmitia emoções. Se ele estava apenas a ser profissional, se estava irritado ou ao ponto de querer estrangular… nunca ficaria a saber através do seu rosto. No momento em que deu um passo em frente e os seus olhos intensos fixaram os meus, desviei o olhar até ao chão instintivamente.

– Saiam todos agora. Quero falar a sós com a Miss Cain. E tragam água e comida, por enquanto preciso dela viva.

Por enquanto? O quanto isso era bom ou mau? Já agora como é que ele sabia o meu nome de família? Seria ele inspector? Provavelmente. Os outros dois militares e o guarda abandonaram a sala o mais rapidamente possível a dizer “Sim, senhor”. Era óbvio que também eles tinham um certo… respeito. Se o homem que estava à minha frente fosse mesmo inspector, isso justificaria tudo. Era superior deles.

Um agradável aroma frutado, um perfume de marca cara, irrompeu com toda a força pelas minhas narinas. Fechei os olhos, esqueci completamente o que pensara antes, desfrutando o momento. Aquele cheiro era viciante. Respirei com mais força… queria poder captar mais e mais do perfume… esperem aí! Não, não, não, não podia ser! Abri os olhos. Quem é que estava mesmo a um passo de mim? Sim, aquele deus grego.

– Posso saber porque é que a menina acha que sou covarde? Por acaso tenho cara de covarde? – grande porra! Era ele o Mr. Black! Onde é que estava o buraco mais próximo para poder esconder-me lá? Porque é que não podia ter uma oportunidade como a Alice da história do brilhante escritor Lewis Carrol “Alice no país das Maravilhas”? Ia tendo um enfarte do miocárdio ali. Recuei um passo. Jamais aquele homem tinha cara de covarde, quanto mais de modelo… assassino e perturbado. – Responda! Tenho cara de covarde?

Dei um pulo com o seu grito meio rouco. Imaginem o Shrek no primeiro filme furioso. A sua cara já transmitia muito mais do que seriedade. Transmitia raiva, irritação, cólera, até ao ponto de se ficar a denotar a mandíbula e os seus lábios juntarem-se tanto que se engelhavam.

– Ainda não me respondeu, está a testar seriamente a minha paciência. – Falou baixo de novo, entre dentes. Aproximou-se um passo e agarrou-me pelo braço, obrigando-me a encarar o seu rosto e olhar fulminante de perto. – Tenho cara de covarde?

– P-podia-me largar? – Sussurrei baixando o olhar até ao colarinho da sua camisa. Tinha vergonha de como a minha voz parecia estar a quebrar-se em milhentos pedaços. – Está a magoar-me…

– Trate-me por Mr. Black. – Largou o meu braço. Deu um passo à retaguarda. Passou a mão comprida e fina, enfeitada de anéis, pelo cabelo num suspiro. Muito mais calmamente, no mesmo tom que tinha usado para iniciar a nossa “conversa”, voltou a falar. – Responda à minha pergunta, Miss Cain.

– Não, Mr. Black, não tem cara de covarde.

– Ainda bem que concorda

Na área da Psicanálise, Sigmund Freud já falava, no início do século XX, na interpretação dos sonhos. A interpretação dos sonhos é um método clínico em que o psicanalista pede à pessoa que lhe relate os sonhos, que seriam a realização disfarçada de desejos recalcados. Freud distinguia o conteúdo consciente do conteúdo latente: os desejos, medos e recalcamentos, maioritariamente de origem sexual. É de fazer lembrar que é Freud o primeiro a afirmar que o comportamento humano é fortemente influenciado pelo psíquico, que teria não só uma dimensão consciente, como também inconsciente. Aparte as discussões acerca da forma como a Psicanálise se baseia, a verdade era que durante o meu último ciclo de sono, o meu sonho teve tudo a ver com os acontecimentos do dia anterior, demonstrando algo bastante curioso. No sonho, apareciam os meus pais no nosso carro, no nosso Audi, a ouvir música dos anos 20. Tudo estava bem, até que aparecia um homem de negro com uma arma na mão e… e matava primeiro o meu pai com um tiro na cabeça e a minha mãe depois com um tiro no coração. Mas o sonho não ficava por aqui. Numa mudança repentina de cena, via-me numa sala escura, sem janelas, de mão e pés atados, no que parecia um interrogatório. Esta era a parte interessante. Na noite anterior, apenas tinha dado, aparentemente, importância a uma parte, porém todo o discurso havia-me perturbado mais do que tinha pensado. Estava presente o medo por todas aquelas regras e leis novas. Ainda que não novas para os meus ouvidos, porque muitas delas tinham inspirações fascistas e tínhamos dado isso a História, eram novas no meu presente, com uma agravante: um alcance muito superior. Por exemplo, a proibição da leitura de certos livros era em muito semelhante à ideia do índex implementado pela Igreja católica para travar o protestantismo. Contudo a instalação de dispositivos de alarme em cada casa, a proibição do uso de redes sociais, as câmaras nas ruas e um sistema parecido ao de escutas dos EUA, o “Big Brother”, eram exemplos de leis que atribuiriam um carácter diferente ao regime com um carácter fascista. E a propósito disso, existia uma dúvida que não parava de me atormentar. O porquê da implementação de uma ditadura no momento. A Itália vivia uma altura de estabilidade financeira, social e política, depois de no início do século ter vivido alguns anos em grandes dificuldades financeiras e de instabilidade política.

No entretanto eram 7:00 horas e nada melhor seria do que enfrentar a situação de frente. Para isso era essencial sair à rua. Para tal efeito, tomei um duche rápido, vesti um fato de treino, calcei umas meias e umas sapatilhas, escovei os dentes e fiz um rabo de cavalo alto. Antes de sair da casa agarrei nas chaves. De frente para a porta, perante a ansiedade, inspirei profundamente e libertei o ar contido pela boca audivelmente – um exercício de relaxamento. Ao final de umas oito vezes, sai de casa, atravessei o caminho de pedra do jardim da frente e olhei em volta admirada. Não vou mentir, esperava encontrar uma cidade suja, destruída. Contudo, tudo parecia normal, com excepção da falta de algumas árvores e algumas marcas de incêndio nas paredes dos prédios. Além disso, reparei que, pelo menos, a minha rua tinha um militar no início, no meio e no fim da mesma. Mesmo à minha frente parou um dos militares.

– Bom dia. O que é que a menina está a fazer a uma hora destas na rua? – O seu tom era monocórdico, aborrecido. Se juntarmos isso ao seu físico medonho: alto, muito musculado, careca, olhos castanhos escuros. – Ainda é muito cedo. Não responde?

O aumento de tom da sua voz para um mais agressivo foi o suficiente para acender o rastilho da bomba. Quem é que ele pensava que era para me pedir justificações quando ele, todos os outros militares e quem estivesse por detrás do movimento eram os grandes responsáveis pela morte dos meus pais?! Num momento para o outro perdi completamente o filtro e a noção do erro que estava a cometer.

– Foram os senhores! Foram vocês que mataram os meus pais! Como é que tem a lata de me perguntar o que é que estou a fazer? Esta resposta serve? Estou a iniciar a minha manhã sem a minha única família viva no país, depois de eles terem sido assassinados ontem a caminho do trabalho só porque um grandessíssimo estúpido se lembrou de estragar o que estava bem!

– Acalme-se ou vou ter de a levar presa!

– Acha que isso me preocupa agora? Esse tal de Mr. Black pode ir dar uma grande volta ao bilhar. É um covarde que nem sequer tem a coragem de dar a cara. Um covarde! Fique sabendo que…

– Chega! – Com um grito gutural interrompeu-me. Tentou-me agarrar pelo braço, mas eu escapei com o membro superior. – Você vem comigo!

Muito mais rapidamente e agressivamente, agarrou-me pelo braço e arrastou-me, literalmente, pela rua fora até chegarmos junto a uma carrinha preta, uma SUV. De lá de dentro saiu um outro militar, parecido com o que me agarrava, e abriu a porta. Sentaram-me no banco, colocaram-me o cinto, puseram as minhas mãos juntas à frente do corpo e colocaram-me umas algemas com um aspecto esquisito. Um deles, com um comando na mão, sorriu para mim, num sorriso torto e maléfico.

– Au! Qual é a vossa ideia? – Um choque elétrico fez-me saltar do banco e gritar de novo. A minha resposta? Bateram-me com a porta na cara a rirem-se como se o facto de ver os outros sofrer fosse prazeroso. – Vocês são todos doentes mentais!

Acabei por calar-me ao perceber que recebia um choque elétrico cada vez que abria a boca para falar.

Perdi a noção quase total do tempo. Mesmo assim, sabia que tinham de ter passado pelo menos dois dias desde que me tinham largado na sala de interrogatórios, se é que aquilo podia-se chamar aquilo. Não sabia, no entanto, se me iriam matar ou não, se aquela tortura a que estava a ser sujeita continuaria. A minha única prioridade era continuar a sobreviver com a pouca água e comida que me davam uma única vez por dia. Para satisfazer as necessidades fisiológicas havia uma porta dentro da sala com a placa “WC”, a casa de banho. Mas não tinha uma banheira onde pudesse tomar banho. Era melhor nem imaginar o meu cheiro deveria de ser tudo menos agradável. Sentia o meu cabelo a ficar oleoso, o cheiro a transpiração e as roupas a ficarem sujas.

Essa não era a pior parte. Todos os dias arranjavam novas formas de tortura: com água, com electrificação, com calor, com frio, com imagens e sons, com cheiros, com tudo o que pudesse tornar as minhas quase 24 horas num inferno na terra. Mas enquanto não me matassem de uma forma tão cruel como matavam os judeus, os homossexuais e divergentes políticos nos campos de concentração e extermínio, teria de sobreviver ao pior erro da minha vida. Deveria de me ter controlado, de ter ficado quieta e calada ou apenas ter respondido que ia fazer uma caminhada, algo normal e legal. Em vez disso, deixei a raiva vir toda ao de cima.

A porta de grandes dimensões cinza anti fuga e anti fogo foi aberta. Mesmo no escuro quase absoluto, os meus olhos levantaram-se do chão, à procura de comida e água na mão do guarda que entrou. O meu cérebro, involuntariamente, já tinha associado a porta ser aberta a alimento e hidratação. A psicologia da Aprendizagem chama isto de aprendizagem associativa, mais especificamente de Condicionamento Clássico. Foi o investigador Ivan Pavlov que, ao estudar os reflexos digestivos do cão, descobriu que, a resposta que um animal ou ser humano dá, resulta da associação de estímulos – no meu caso levantava a cabeça associando a comida e água, porque cada vez que abriam a porta era para isso. Claro que há diferenças entre o animal e nós. Enquanto o animal desaprende se a associação estímulo-resposta não for continuamente repetida, o homem não desaprende. Pois bem, aparte a Psicologia, desta vez não me traziam nem comida nem água. Se não me traziam nada, só poderia significar uma coisa: morte.

Uns segundos após a entrada do guarda, entraram mais três homens. Os primeiros dois não eram guardas, eram militares de rua. Como se viraram logo de costas para mim e de frente para o terceiro indivíduo, não pude ver o aspecto do último. Apenas sabia que era um homem anormalmente alto. Se não tinha 1,85m estava bem perto disso. Além da sua altura, havia outra coisa que o distinguia: tinha cabelo! Era o primeiro homem do novo regime que via que tinha cabelo, bem bonito por sinal. Não deveria de pensar dessa forma, mas o seu cabelo era totalmente preto e estava penteado numa popa admiravelmente perfeita.

Alguns minutos decorridos, os militares que me impossibilitavam a vista, viraram-se para mim e deslocaram-se para o lado… Meu Deus! Seria possível alguém acumular mais beleza do que aquele ser?

Em primeiro lugar, o seu rosto era o protótipo da perfeição: tez morena, barba feita, lábios carnudos e rosados, nariz moldado, olhos azuis escuros, pestanas compridas e sobrancelhas carregadas e pretas. Em segundo lugar não era excessivamente musculado: o fato preto, a camisa branca abotoada até ao último botão e a gravata de seda preta assentavam-lhe que nem uma luva. Chegando às suas expressões senti um arrepio por toda a coluna vertebral acima e braços, pondo em pé cada pelinho durante a viagem. O seu rosto não transmitia emoções. Se ele estava apenas a ser profissional, se estava irritado ou ao ponto de querer estrangular… nunca ficaria a saber através do seu rosto. No momento em que deu um passo em frente e os seus olhos intensos fixaram os meus, desviei o olhar até ao chão instintivamente.

– Saiam todos agora. Quero falar a sós com a Miss Cain. E tragam água e comida, por enquanto preciso dela viva.

Por enquanto? O quanto isso era bom ou mau? Já agora como é que ele sabia o meu nome de família? Seria ele inspector? Provavelmente. Os outros dois militares e o guarda abandonaram a sala o mais rapidamente possível a dizer “Sim, senhor”. Era óbvio que também eles tinham um certo… respeito. Se o homem que estava à minha frente fosse mesmo inspector, isso justificaria tudo. Era superior deles.

Um agradável aroma frutado, um perfume de marca cara, irrompeu com toda a força pelas minhas narinas. Fechei os olhos, esqueci completamente o que pensara antes, desfrutando o momento. Aquele cheiro era viciante. Respirei com mais força… queria poder captar mais e mais do perfume… esperem aí! Não, não, não, não podia ser! Abri os olhos. Quem é que estava mesmo a um passo de mim? Sim, aquele deus grego.

– Posso saber porque é que a menina acha que sou covarde? Por acaso tenho cara de covarde? – grande porra! Era ele o Mr. Black! Onde é que estava o buraco mais próximo para poder esconder-me lá? Porque é que não podia ter uma oportunidade como a Alice da história do brilhante escritor Lewis Carrol “Alice no país das Maravilhas”? Ia tendo um enfarte do miocárdio ali. Recuei um passo. Jamais aquele homem tinha cara de covarde, quanto mais de modelo… assassino e perturbado. – Responda! Tenho cara de covarde?

Dei um pulo com o seu grito meio rouco. Imaginem o Shrek no primeiro filme furioso. A sua cara já transmitia muito mais do que seriedade. Transmitia raiva, irritação, cólera, até ao ponto de se ficar a denotar a mandíbula e os seus lábios juntarem-se tanto que se engelhavam.

– Ainda não me respondeu, está a testar seriamente a minha paciência. – Falou baixo de novo, entre dentes. Aproximou-se um passo e agarrou-me pelo braço, obrigando-me a encarar o seu rosto e olhar fulminante de perto. – Tenho cara de covarde?

– P-podia-me largar? – Sussurrei baixando o olhar até ao colarinho da sua camisa. Tinha vergonha de como a minha voz parecia estar a quebrar-se em milhentos pedaços. – Está a magoar-me…

– Trate-me por Mr. Black. – Largou o meu braço. Deu um passo à retaguarda. Passou a mão comprida e fina, enfeitada de anéis,

comigo. Para sua informação, é a primeira pessoa que está a ser detida. Toda a gente está a cumprir com as novas leis e a menina sai à rua às 7:10 horas da manhã e, quando um dos meus militares lhe perguntou o que estava a fazer na rua aquela hora, você resolveu insultar-me. Estúpido e covarde foram os adjectivos usados, não foram? Tem a plena consciência que quebrou a lei, certo? As consequências desse género de delitos estão bastante claras na nova constituição: pena de morte. Sente-se na cadeira. Ainda não acabámos a nossa conversa e eu quero saber porque é que uma garrafa de água e comida demoram tanto tempo a ser trazidos. Entretanto, aproveite para pensar.

Durante a sua ausência, sentei-me na cadeira. Dizer que estava aterrorizada era um eufemismo. O que sentia ia muito além disso. Tinham-me mantido ali, a ser torturada por horas e horas e, só então iam acabar com tudo? Mais valia ter sido logo, ao menos não alimentavam-me com esperanças falsas.

– Beba água e coma. – Aquilo era alguma tentativa de imitação de Christian Grey? Olhei a garrafa de água e o croissant misto pousados em cima da mesa de madeira à minha frente. Bebi quase meia garrafa de água de uma vez, os meus lábios estavam tão gretados de desidratação… – Coma, deve estar a sentir-se fraca.

Agora preocupava-se? Se calhar a ideia era a mesma da história de Hanzel e Greta: primeiro engordar, depois matar. Dobro da satisfação. Claro que engoli o meu orgulho, estava cheia de fome. Comi o croissant que por segundos soube-me ao gelado caseiro que costumava comer na gelataria da nossa rua, tamanha era a fome, enquanto ele se sentou na cadeira à minha frente e pousou os braços na mesa, entrelaçando os dedos uns nos outros. Tentei por diversas vezes desvendar os seus pensamentos. Em nada deu. De facto, tão depressa o seu rosto estava calmo como no momento, como a seguir estava aos berros comigo. Isso não deveria de me surpreender: era ele o arquitecto de todo aquele regime, era ele quem dava as ordens, era ele o responsável pelas milhares de mortes a sangue frio no dia da Revolução e o responsável pela morte dos meus pais. Alguém equilibrado com certeza não poderia ser.

– Se vai mandar matar-me porque é que me deu comida e água? Não faz sentido a menos que isto seja um jogo. É um jogo?

– Não fale assim comigo, Miss Cain. Não me obrigue a voltar atrás na decisão que tomei. Estou a ver que pensou naquilo que lhe disse antes de sair. Como eu previ, chegou às conclusões erradas. Eu disse que a pena de morte era a sentença para quem cometesse o delito de insultar o governo ou a minha pessoa, não disse que essa seria a sua sentença. Esteve aqui fechada durante três dias, a ser alimentada apenas uma vez por dia e foram-lhe aplicadas diversas torturas. Acho que isso é o suficiente. Quando a nossa conversa acabar vai poder voltar para casa. Eu mesmo vou levá-la a casa. Mas uma coisa é certa, se algo de errado se voltar a passar, não irei ser tão compreensivo. Estamos entendidos?

– Sim, Mr. Black.

– Excelente. – Levantou-se. Vi passar pela sua cara um breve sorriso. Breve, mas incrivelmente belo e honesto. – Estique os braços na frente do seu corpo e junte os pulsos, vou precisar de algemá-la.

– É mesmo necessário?

Não me respondeu. Agarrou nos meus braços, colocando-os à altura da mesa, juntou os meus pulsos e colocou as algemas. Fez-me sinal, a seguir, para me levantar e segui-lo. Fui sempre mesmo atrás dele. Todos os guardas, quando ele passava, faziam uma saudação que reconheci como sendo fascista. Ele parou em frente de um dos militares que tinha entrado na sala com ele, demasiado de repente, fazendo com que batesse contra as suas costas e braço. Murmurei um “desculpe”, mas ele apenas me dirigiu um olhar rígido.

– Eu vou levar a Miss Cain a casa, quando eu voltar… – parou de falar e aproximou-se do militar com um ar extremamente ameaçador. Senti que naquele momento não era a única pessoa quase a sucumbir com toda aquela tensão. – Se não tiver aquilo que pedi em cima da minha secretária, alguém vai ficar sem as mãozinhas, para se lembrar que os prazos são para se cumprirem. Compreendeu, Mr. Stone?

– S-sim, senhor.

– ótimo. O recado ficou dado para todos. – Virou-se para todos, que tinham ar de quem tinha visto um fantasma. – Voltem ao trabalho.

Saíram todos do modo congelado e foram-se sentar nas secretárias mais rápido do que eu poderia pestanejar – e olhem que além de espirrar, pestanejar era a coisa que o meu corpo mais rápido fazia. O Mr. Black continuou a andar, sem verificar se eu estava realmente a segui-lo. Depois de ameaçar alguém ficar sem mãos, algo que acreditava que ele seria capaz de fazer sem remorsos, não iria arriscar ficar com a cabeça separado do resto do corpo ao modo da Idade Média e Inquisição. Mesmo estacionado à porta da esquadra, estava um BMW preto novinho em folha. Em silêncio, abriu a porta do lado do pendura e com a mão disponível mandou-me entrar. Passei por ele o mais longe possível e sentei-me no banco de pele preto confortável e luxuoso, o mais perto possível da porta. O cinto prendeu-me às costas do banco automaticamente. Segundos depois entrou ele, pondo o carro a funcionar no botão start. Com a condução automática e o uso de combustíveis 100% reutilizáveis, andar de carro tinha-se tornado muito melhor: nada de poluição e nada de cansaço. Apenas tínhamos de inserir a morada de destino que o dispositivo não só calculava o trajecto mais rápido, como também se ligava ao carro que reconheceria todas as rotundas, praças, semáforos, passadeiras, largos, ruas, avenidas e curvas. A única coisa que o condutor tinha de fazer era acelerar, diminuir a velocidade, iniciar a condução e pouco mais. Evitava muitos acidentes.

– Miss Cain, como esteve três dias sem saber nada do mundo exterior, fica a saber que terá de escolher um clube de actividades, um ou mais é indiferente, até ao final da semana. Os horários serão depois mandados por correio e email. Temos as mais variadíssimas actividades. Desde as relacionadas com as letras e humanidades, até às matemáticas e ciências naturais. Poderá também tirar um curso de costura, de culinária, de moda, de artes plásticas, música ou dança. Quando as suas aulas começarem, os horários mudarão. Vai para a faculdade este ano, certo?

Ok… alguém tinha andado definitivamente a ver o meu processo. Só isso explicaria ele saber o meu nome de família, que ia para a faculdade, a minha morada. Então também deveria de saber que tinha ficado sem os meus pais por sua causa. Se era esse o jogo que ele queria jogar, eu alinharia com o maior dos prazeres.

– Preferia saber quando é que vou poder fazer o funeral dos meus pais, Mr. Black. A minha ida para a faculdade neste momento é insignificante. Talvez não vá mesmo. Que diferença é que isso lhe faz?

– Modere o tom.

– Não me respondeu.

Parou o carro à beira da estrada, tirou o cinto e, com as mãos a envolverem o meu pescoço, olhou-me olhos nos olhos. O seu olhar azul nunca me tinha feito lembrar tanto o mar do norte: gelado.

– Oiça bem… – Fez mais pressão. Um esgar saiu da minha garganta a correr. Se apertasse nem que fosse mais um bocadinho… Deixando-me quase sem ar, o seu olhar balançava entre o meu. – Não tenho de responder nada. Aqui, quem tem de dar satisfações é a menina. Certo?

– Sim…

Largou-me o pescoço com força, deixando a minha cabeça bater no banco. Prendeu o olhar no meu por uns segundos e, com a mesma expressão colérica e fria, continuou a conduzir. Massajei a zona do pescoço, parecia ainda sentir as suas mãos gigantes apertarem a minha pele e ossos da base do pescoço. Sem querer, uma lágrima desprendeu-se do meu olho. Viajou pelo alto da minha bochecha, pela curva do nariz, pelos lábios e pelo queixo até cair no meu casaco de fato de treino. Atrás dessa lágrima, muitas outras quiseram fazer o mesmo. Mas eu controlei-me, desviei o olhar até à porta do carro e limpei o rosto com as costas da mão.

– Saia, Miss Cain. – olhei para cima. Nem tinha notado a nossa chegada. Nem isso nem a paragem do carro, a sua ausência do mesmo e o som das portas a abrirem e a fecharem. Saí do carro, aplicando a maior força nas pernas, por ter as mãos algemadas. Esperei ao lado do carro com o olhar posto na calçada da rua. Não queria que ele me visse a chorar e não queria voltar a ver os seus olhos brutalmente gélidos. Sentia-me ameaçada.

Ande, sou eu quem tem as chaves.

Segui, a uma distância razoável atrás de si. Vê-lo a abrir a porta para o único sítio que me tinha deixado protegida durante a Revolução, foi uma sensação estranha. Aparentemente, não se importava por estar a entrar numa casa que não era sua, parecia até indiferente. Deixou a porta aberta para eu passar e fechou-a atrás de mim. Parei no meio da sala. Tudo como tinha deixado há três dias atrás.

O seu perfume foi quem denunciou a sua pessoa, porque os passos tinham sido dados em lã. Tirou-me as algemas dos pulsos e, surpreendendo-me, começou a massajar levemente a pele dos pulsos. Podia dizer que o movimento circular dos seus dedos não estava a ser uma sensação divinal, porém isso seria uma enorme falsidade. O movimento circular e lento fez-me relaxar e fechar os olhos. Jamais pensaria que o mesmo homem que me tinha apertado o pescoço com tanta força e rudeza, era capaz de tamanha delicadeza e afecto. Ao levantar os olhos para o seu rosto, a sua expressão denunciou-o: nem ele esperava ser capaz de tal gesto. Os seus olhos estavam muito mais diluídos, as suas feições muito mais relaxadas do que ao que me habituara. Perguntava-me o porquê. A paragem e afastamento súbito pôs-me outra vez alerta.

– Eu vou-me embora, a menina vai tomar banho.

Porquê? Porque é que ele me estava a tratar por você e por menina e por Miss Cain? Se ele tinha 25 anos era muito. Oito anos, o que era isso? Éramos os dois jovens.

– Porque é que não me trata por Sophia?

– Porque eu não trato ninguém pelo nome próprio.

– O seu nome de família é mesmo Black?

– Chega de perguntas. Já sabe demasiado. – Falou rude e seco. – Vemo-nos por aí, Miss Cain.

Virou-me as costas e dirigiu-se até à minha porta. Senti-me subitamente… vazia. Antes de girar a maçaneta, virou-se para trás. O seu olhar cruzou-se com o meu. Abriu a boca umas duas vezes, mas acabou por abrir a porta e sair.

 

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