Capítulo III

“De repente nos vemos nus diante da ansiedade que nos deixa cegos e indefesos, porém dentro de nós estão as armas para nos livrar das suas garras. “

Desconhecido

 

Ainda não tinha aberto os olhos e uma dor de cabeça já sorria sadicamente para mim. Tinha a sensação do meu encéfalo se estar a partir aos pedaços. Abri os olhos a custo e tentei sentar-me com cuidado, servindo-me da cama como apoio. O que encontrei diante de mim foi das melhores coisas que se podem contemplar na vida: o nascer do sol. O céu estava quase todo em tons de avermelhado, assim como o sol a formar um semicírculo na linha do horizonte. A única coisa que poderia ser mais bonita era um nascer do sol na praia. Era fantástico ver como a luz do dia ia conquistando terreno à escuridão da noite, para ao final da tarde ser a escuridão a protagonista… como em tudo na Vida. Por exemplo, tinha a perfeita consciência que aquele acidente de viação me tinha marcado permanentemente, tanto que sofria de TEPT – Transtorno de Stress Pós-Traumático – um tipo de Transtorno de Ansiedade.

Durante muitos anos recebi apoio psicológico, que me ajudou a voltar a entrar num carro, conseguir estar num sítio mais ou menos fechado, não desmaiar ao ver sangue e não me assustar intensamente e constantemente com barulhos de estrondos. Aparte as ocasionais revivências e pesadelos, levava uma vida “normal”. Dentro do convento, o facto de ter algumas actividades artísticas e mais espirituais também me ajudou, para além das técnicas de relaxamento que me ensinou para momentos de grande aflição. Há algumas horas atrás não tinha conseguido lembrar-me sequer da sua existência devido ao desespero extremo, porém agora já conseguiria, afinal queria evitar que algo parecido voltasse a acontecer. Não me parecia nada que o Senhor Bragatti fosse abrir aquela porta antes de ser outra vez quase de noite, como prometera.

Então, fui até à casa de banho aliviar a bexiga e beber um pouco de água. Depois procurei o melhor espaço para executar as técnicas de relaxamento aprendidas nas sessões de Psicoterapia. Não resisti a deitar-me no chão, fresco.

A primeira coisa que fiz foi contrair os músculos todos por uns segundos, para depois os relaxar. Repeti o exercício umas três vezes até sentir o corpo mais leve e sentei-me no chão com as pernas à chinês. Iniciei os oito ciclos de respiração: inspirava profundamente pelo nariz até os pulmões estarem cheios de ar e expirava pela boca até sentir o peito a descer e os ombros relaxarem. No fim, fechei os olhos, imaginei que estava a flutuar no mar quase transparente de uma praia tropical e desértica, e em que a única coisa que ouvia era as ondas e o canto dos pássaros.

Numa hora ou outra todos os meus pensamentos foram interrompidos. O mais engraçado é que durante o tempo em que consegui chegar a esse clímax, não dormi, mas também não ouvi, senti ou mexi; e, ao despertar desse género de sonho acordado, senti-me genuinamente feliz. A primeira vez que isso me aconteceu fiquei confuso e falei com a minha Psicoterapeuta. Ela explicou-me que durante a meditação as ondas cerebrais atingem o ritmo teta, o mais lento e correspondente ao período pré sono, em que os nossos sentidos estão adormecidos. Além disso, o fluxo sanguíneo diminuía em todas as áreas cerebrais menos na responsável pelas emoções, memória, ritmo cardíaco e respiração – Sistema Límbico; e que a actividade cerebral diminuía gradualmente no lobo responsável pela percepção do espaço, tempo e do “eu”.

Levantei-me com bastante calma do chão, para não ficar com tonturas, e caminhei em direcção à janela. O sol já não nascia, o sol estava no seu esplendor: a brilhar e a espalhar todas as suas boas energias. Ele era o protagonista do céu, não se via mais nada além de si. Nada de nuvens branquinhas e fofinhas, aviões a deixarem um rasto ou pássaros. Devia de estar um dia de calor intenso, ainda que não o pudesse sentir dentro de casa devido ao ar condicionado instalado no quarto e a funcionar. Ao menos isso… Sim, porque o meu estômago roncava e resmungava como nunca, a avisar-me que se não queria ficar esticado no chão, devia de me alimentar. E só de pensar que toda a situação tinha sido por discordar com o Senhor Bragatti no momento em que decidiu impor regras e rotinas, ridículas por sinal. Aquele homem conseguia tirar-me do sério, sentir coisas que odiava sentir, nomeadamente a raiva. Como se alguma vez fosse… Aquilo era o som da maçaneta a rodar? Oh meu Deus! Virei-me para trás à velocidade da luz, os olhos cheios de esperança e o meu estômago a fazer já uma festa com a minha boca salivante, só de pensar que poderia finalmente saborear um alimento. É só imaginarem o Alex do filme do Madagáscar a imaginar um bife suculento.

As expectativas foram, felizmente, correspondidas. A perspectiva de ficar uma tarde inteira cheio de fome, sem nada para fazer e trancado no quarto já me estava a deixar apreensivo quanto à minha resistência. Atrás da porta surgiu a figura que tanto esperava ver. Irónico, eu sei! A primeira e a última pessoa que queria ver.

Tal como já me havia habituado, usava um fato, novamente deslumbrante. Era um fato cinzento, com uma camisa branca. Desta vez não usava gravata, ou laço. A sua expressão era dura, a raiva do dia anterior continuava colada no rosto. Quis ser forte, contudo toda a coragem tinha ido por um cano abaixo, perante aquele olhar frio e feroz. Baixei a cabeça. Sim, tinha medo dele, afinal de contas tinha-me trancado ali durante praticamente um dia. Os eventos da noite anterior ainda eram frescos.

– Anda comer.

Sem outra opção segui-o até pararmos numa mesa de jardim, à beira da piscina. Além do alívio de não estar preso entre quatro paredes, os sumos, croissants, pão, charcutaria e bolos dispostos tinham um aspecto simplesmente maravilhoso. Só o cheiro me levava às nuvens cinco vezes. Que fome!

– Espero que tenhas aprendido a tua lição. – Serviu-me um copo de sumo, um croissant misto e uma fatia de bolo. Nem me dei ao trabalho de reagir ao que disse, bebi logo um pouco do sumo e trinquei o croissant. Que delícia! Sumo de laranja natural. Devia parecer uma criança a comer o tão prometido chocolate, com a diferença que nunca tinha tido essa sensação porque era alérgico a chocolate. Em vez de me comprarem chocolate, quando era mais novo, os irmãos faziam gelado caseiro de morango e manga, os meus sabores preferidos. Vi o meu raciocínio ser interrompido por uma risada. Larguei o croissant e olhei para o Senhor Bragatti. Ele exibia um sorriso torto, o tronco encostado completamente às costas da cadeira de verga, casualmente e descontraído. Toda aquela raiva tinha-se evaporado. Se o que surgia em vez disso era melhor não sabia, a imprevisão era o seu forte. – A forma como estás a comer tão satisfeito é inigualável. Não estou à espera que percebas, por seres tão inocente, mas só consigo imaginar se a satisfação seria a mesma se comesses outra coisa.

– Como assim outra coisa? Eu estou esfomeado, Sr. Bragatti – Respondi-lhe confuso. O homem não podia-se estar a sentir bem, a maneira como estava a passar a língua pelos lábios, humedecendo-os, para depois os trincar… era esquisita e deixava-me desconfortável. – Se bem me lembro trancou-me no quarto por discordar das suas regras. O senhor não sabe o inferno que passei lá dentro.

– Eu avisei mais do que uma vez, aliás nunca escondi, o tipo de homem que era. Provocaste durante demasiado tempo sem resposta. Garantidamente que foi algo muito leve comparado com as coisas que me passaram pela cabeça. Tens sorte em te achar uma gracinha.

– Leve? Se o senhor tivesse os problemas de saúde que eu tenho não dizia… – Tapei logo a boca com a mão. Não era suposto dizer aquilo, ele não largaria mais o osso.

Levantou-se da cabeceira da mesa e foi até atrás da minha cadeira. Todo o meu corpo enrijeceu, e ainda mais quando as suas mãos indignas tocaram os meus ombros e os apertaram.

– Que problemas, Angelo?

– Não era nada disso que queria dizer. Só não lido bem com espaços fechados. – Tentei mentir o melhor que sabia, que não era certamente bom para mim. – O senhor sabe que há pessoas com claustrofobia e eu sou uma delas.

– Certo. Pelos vistos devia de ter feito logo o que a minha mão tanto desejava: baixar essas calças de fato de treino perfeitamente ajustadas ao teu rabo grande, redondo e firme, despir as boxers pretas que escolhi especialmente para ti e expor toda essa pele branca e pura. – Nem tinha palavras para o que o líder da Cosa Nostra me tinha sussurrado ao ouvido. Bem que dizia que as calças realçavam demasiado… o bastardo! Ele tinha ficado a olhar para… para o meu rabo? – Não fiques com essa carinha, princesa. Ainda não acabei. Depois de te deixar exposto, iria espancar o teu glorioso rabo até que ele tivesse tatuado as marcas da palma e dedos da minha mão.

– Nem tenho um adjetivo mau o bastante para caracterizar o que me acabou de dizer! Eu sou frade, Senhor Bragatti! – Resmunguei irritado. Ouvi a mesma risada de há minutos atrás. – Onde é que está o respeito?

– Com nenhum de nós os dois. Imagino bem pior, meu querido. Bem pior.

– A sua mente assusta-me.

– Não vejo porquê, no fim ias acabar por descobrir o prazer na dor. Nem sabes o prazer que me dá ao ver alguém suplicar pela vida, por dinheiro, por droga, por influências.

– O senhor é um sadista! Como é pode sentir prazer ao infligir dor aos outros? Nunca conheci alguém tão mau como você. Devia de ter vergonha da profissão ou do estilo de vida que leva, mas não! Tem um orgulho estúpido, de um pavão, por ser o Don da Cosa Nostra, com uma idade tão precoce. Vocês são vis, assassinos, destruidores de lares…

E plaft! Levei um estalo com tanta força na face direita que me fez virar involuntariamente a cara e sentir, de imediato, um sabor metálico a sangue na boca. Levei a mão à bochecha dorida e a queimar. Olhei, com o coração a mil, para o responsável de tal acto tão violento e evitável. Acham que ele estava com um ar arrependido? Não! Olhava-me com tanta fúria que me fez mirar o fantástico e impecável relvado, ainda a agarrar a bochecha. Como se a dor fosse passar por causa disso…

– Vais ficar calado! Não estou mesmo com disposição para ouvir nem que seja um ai dessa boquinha. Atreve-te a respirar mais alto. Quero que vás para a biblioteca e que leias os textos que lá estão, resolvas os exercícios de Matemática e Física e Química, e que me escrevas uma composição ao teu gosto. – Baixei a mão do rosto. – Não suspires de alívio, Angelo. A tua vida, daqui para a frente, vai ser um verdadeiro inferno na Terra. Vais sentir como se o Diabo, Satanás, Lúcifer, Mefistófeles, Belzebu ou ainda Azazel, tivesse descido à Terra. Eu tentei uma abordagem mais sensível, juro que tentei. Mas tu abusaste da minha paciência. Nada, nada mesmo vai demover-me das minhas intenções a partir de agora. O que provaste de ontem… é só um aquecimento.

Ainda com a face a arder e o ego ferido, levantei-me da cadeira e segui em direcção à biblioteca, que ficava ligada à sala de estar. A biblioteca era do estilo antigo, com pouca iluminação e móveis de madeira escura, maciços, até ao teto. No fundo da sala estava uma secretária com um globo terrestre e uma série de livros, cadernos e canetas dispostas. Era ali que ia estudar.

De certo modo, o espaço fazia-me lembrar a biblioteca do convento – grande, escura e cheia de livros, uns mais antigos, outros mais recentes – o que era exactamente o que precisava num momento em que a mágoa e a tristeza me enchiam. Avancei, assim, sem grandes demoras, para o trabalho que tinha a fazer, duvidava que o senhor Bragatti me deixasse sair dali enquanto não acabasse de ler os textos de História e Português, fizesse dois exercícios de Física, dois de Química, um problema de Matemática e escrevesse a dita composição. Posso dizer que era quase de noite quando acabei tudo, arrumei e segui até à cozinha.

Abri uma das portas da cozinha e tirei um copo. Ao virar-me para ir ao frigorífico buscar a água, apanhei o susto da minha vida. Parado, encostado ao eletrodoméstico, de braços cruzados estava um homem alto. Não era tão alto como o senhor Bragatti, mas era definitivamente mais alto que eu. As suas expressões também não eram tão fortes e masculinas, as linhas do seu rosto eram mais delicadas e de uma beleza igualmente estonteante. Não pude deixar de reparar nas sardas e nos olhos azuis com algumas tonalidades de verde, bem como na barba e cabelo despenteado. O seu estilo era casual: usava uma t-shirt, um casaco de cabedal, umas calças justas e botas do estilo militar, tudo no tom de preto, que lhe assentava bem por ter a tez clara.

– Presumo que sejas o Angelo. O Pietro tem-me falado imenso de ti.

– Devia de saber quem o senhor é? – Riu-se, mas não era um riso cortês, era um riso de quem se estava a divertir com o meu desamparo. – Qual é a piada?

-Toda. – Desencostou-se do frigorífico ainda a rir-se. – Onde é que está o Pietro?

– Não sei, talvez deva perguntar a alguém que trabalhe aqui.

– Angelo! – Ora aí estava o tão aclamado Pietro Bragatti, furioso como sempre, pronto a atacar a qualquer instante. – As maneiras. O que é que se passa, Valentino? Tinha dito que os assuntos da Máfia passariam a ser tratados onde combinámos na semana passada.

– Eu sei mas não pude resistir em conhecer a nova conquista do meu melhor amigo.

– Se não fossemos amigos há tantos anos podes querer que já te tinha enfiado uma bala no meio da testa. – O seu amigo e braço direito apenas revirou os olhos. Coragem. Bem, se eram amigos há tantos anos já devia de estar habituado ao mau humor do Senhor Bragatti. – Hoje estou sem paciência.

– Como todos os dias. – Deu-me vontade de rir. Não só tinha coragem para revirar os olhos como para responder. Imaginem só, o tão temível Senhor Pietro Bragatti apenas bufou como um touro dos desenhos animados humilhado por ter sido derrotado. – Devias de aprender a relaxar um pouco. Toda essa tensão faz-te rugas. Não tarda vais parecer um velho de noventa anos.

– Claro. Vai andando para o meu escritório, primeiro preciso de resolver uns assuntos.

– Sim, chefe. – E fez-lhe uma continência antes de se retirar.

Já o Senhor Bragatti nem esperou que o amigo saísse da cozinha antes de caminhar até mim, em passos largos, e parar a centímetros de ficar com o corpo colado ao meu. O sorriso que antes exibia dissipou perante a sua expressão ameaçadora. Ele não tinha gostado nada da forma como tinha respondido ao seu amigo e braço direito, que não tinha ar de ser o género de pessoa envolvida numa associação criminosa tão perigosa. Aí estava a prova que as aparências nos podem iludir num sonho e estado de ignorância tão grande que quando acordamos é tarde demais para perceber que o mal existe e que há sempre essa escolha errada possível de ser tomada. O praticar o bem está não só em grandes actos de solidariedade e altruísmo, como nas pequenas ou grandes acções de tomada de decisão.

Quando levantou o braço para agarrar no copo pousado na bancada onde estava encostado, encolhi-me fechando os olhos e colocando os braços à frente da cara, à espera de uma nova deceção… á espera de um estalo que nunca chegou.

– Não te vou bater, Angelo, não que não me falte a vontade. Mas tenho assuntos urgentes a tratar e tu tens uma hora para fazer o jantar e pôr a mesa. A partir de agora és tu que vais tratar da limpeza de toda a casa, assim como do jardim. Todos os dias. – O quê? Não que não estivesse habituado a limpezas, mas a casa era enorme e eu não sabia fazer jardinagem. – Não abras assim a boca de espanto, também quero que cozinhes todas as refeições: pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar. Considera isto o teu castigo pela forma como trataste o Valentino. Eu avisei que as coisas iam correr de maneira diferente.

– O que é que o senhor vai querer para o jantar? – Perguntei simplesmente, não queria alimentar mais discussões, se dissesse alguma coisa contra tudo poderia piorar ainda mais e oferecer a minha cabeça numa bandeja. – Alguma preferência?

– Surpreende-me. Só uma recomendação antes de me ir embora… Cozinha o melhor que souberes, afinal não vais querer perder o direito de dormir no conforto de uma suite de luxo, não é? Dormir num sótão deve ser desconfortável.

– Isto foi por ter respondido daquela forma ao seu amigo?

– Por acaso dei-te autorização para falar ou perguntar alguma coisa? – Acenei que não. Parecia que inúmeros punhais se atravessavam ao mesmo tempo no meu coração. Ele nunca tinha sido constante no seu comportamento, isso é verdade, no entanto por vezes dizia aquelas coisas que me deixavam sem graça e com uma sensação esquisita mas boa por todo o corpo. Agora tratava-me como se fosse criado dele. – Bem me pareceu. Até daqui a uma hora.

Ver o seu corpo afastar-se do meu e virar-me as costas devia de me deixar feliz. Mas não era nada do género que sentia. Sentia um vazio e um grande ponto de interrogação formar-se no meu cérebro. O que é que podia fazer para nós comermos que demorasse menos do que uma hora?

Abri o frigorífico. Lá encontrei, numa tigela, carne temperada para fazer strogonoff. Deduzi que tivesse sido alguma empregada, que deve ter visto nas últimas horas o seu cargo ser suprimido. E tudo por minha causa…

Não sei como, porém ao final de menos de uma hora tinha o jantar pronto e a mesa posta, assim como tinha sujado a minha t-shirt com o molho e cortado o dedo anelar numa das facas. No momento, com um guardanapo fazia pressão sobre o corte, manchando o papel branco com o sangue de cheiro férreo nauseabundo. Graças a Deus que não tinha Hematofobia, caso contrário estava esticado no chão a visitar o inconsciente.

– Meu Deus! O que é isso, homem? – Virei-me preocupado com o grito do tal de Valentino. Podia ser uma aranha ou algo do género e ninguém gosta de octópodes nas suas casas. Ao lado, o Senhor Bragatti revirou os olhos. Nem se preocupava por me ter cortado. O seu olhar apenas foi da mesa até ao fogão, com certeza para verificar se estava tudo pronto. – Estás bem? É fundo?

– É um corte pequeno. Está tudo bem. – Disse com a voz embreada. A deceção que sentia pela indiferença do Don da Cosa Nostra era tão grande que as lágrimas acumuladas durante a preparação do jantar, no canto do olho, ameaçavam cair. – Não dói.

 – Realmente és muito insensível. Para quem estava tão vidrado no aspirante a frade não quer muito saber se ele está vivo ou morto. – O senhor Valentino disse com tanto desdém que era a primeira vez que o via ser tão sério. – A minha missão está feita aqui. Vemo-nos amanhã.

– Sem atrasos, Valentino.

– O meu atraso ou não atraso não é relevante. Vê se pensas no que andas a fazer, distingue a tua vida privada da vida dentro da máfia. – Aproximou-se da porta da cozinha, abrindo-a com brutalidade. – Sinceramente…

Nem mais uma palavra de despedida. Confesso que a surpresa era muita, o Senhor Valentino era uma pessoa de muitos extremos e paradoxos: brincalhão, corajoso, perigoso e ao mesmo tempo de uma humanidade que fez a minha mente dar voltas e voltas. Porque é que ele estava na máfia? Algo não batia certo…

– Vamos comer.

Rapidamente fui pôr o guardanapo no lixo e buscar as panelas. Servi aos dois e sentei-me na cadeira, á espera que ele começasse a comer para também o poder fazer. Não ousei, durante toda a refeição dizer sequer um ai ou levantar o olhar sem ser para verificar que a comida estava boa. Pela sua expressão quando levou a primeira garfada á boca… estava boa. Foi a primeira vez em algumas horas que vi as suas expressões faciais relaxarem num quase sorriso e os olhos se fecharem de deleite. Durante o restante tempo apenas comi silenciosamente, bebi um copo de água e levantei a mesa assim que acabámos de comer. Como não queria ter de acumular loiça para o dia seguinte lavei-a, tal como ao fogão, bancada e mesa.

Quando acabei virei-me para o Senhor Bragatti, que permaneceu o tempo todo sentado na sua cadeira a fazer algo no telemóvel.

– Amanhã tens de te levantar às sete da manhã. Quero que tomes banho, vistas a roupa que te deixar em cima da cama, como hoje, e que vás preparar o pequeno-almoço. É suposto que às oito e meia tudo esteja pronto. Entendidos?

– Sim. Boa noite, Senhor Bragatti.

Nem esperei por um Boa Noite que nunca viria, simplesmente subi as escadas e fui para o meu quarto. Em cima da cama encontrei um pijama. Fui tomar banho, vesti-o e fui-me deitar nos lençóis cheirosos. Em poucos minutos adormeci, a mirar dali mesmo o luar e a ouvir o cântico dos grilos.

Mesmo sem despertador eram quase sete horas quando acordei. Há muito tempo que não dormir numa cama tão confortável. Ao menos isso para me permitir recarregar baterias. Espreguicei-me, ainda sem acreditar em tudo o que tinha para fazer, e abri a janela do quarto. A brisa mais fresca da manhã não só trazia o perfume das flores como também trazia a memória das idas à praia com os irmãos e até com os meus pais. O areal branco e fino que servia para fazer castelos e as ondas do mar a obrigar-me a reconstruir uma e outra vez a piscina à sua beira…

Respirei fundo mais uma vez, de olhos fechados, antes de ter de ir tomar banho e vestir a roupa que o Senhor Bragatti tinha deixado em cima do cadeirão: uma t-shirt branca, umas calças de fato treino pretas, do meu género que as outras, e umas sapatilhas brancas. Logo de seguida fiz a cama e desci as escadas em direcção à cozinha.

A primeira coisa que fiz foi torrar o pão caseiro disposto em cima da bancada num saco, e ferver o leite por serem as coisas que demoravam mais tempo. Enquanto isso pus a mesa e retirei do fresco os sumos de maçã e laranja, o fiambre, o queijo, os doces caseiros e os patés. Também vi que estava num das prateleiras um bolo de bolacha. Retirei-o, não queria cair no erro de ser muito selectivo e o Senhor Bragatti ter um gosto mais peculiar. O mais seguro seria mesmo o pequeno-almoço continental.

Não tive de esperar muitos mais minutos até ver um tal de Pietro Bragatti entrar na sala de jantar. Usava umas calças de fato pretas justas, uma camisa branca com os primeiros dois botões desabotoados e as mangas arregaçadas, e uns sapatos clássicos pretos – nada de gravatas, laços, casacos ou coletes. Mas havia coisas que não mudavam, como o seu cabelo perfeitamente penteado, a barba aparada e um perfume masculino que enchia sempre o espaço da melhor forma possível. A mesma expressão séria, sem emoção, fria e perigosa do dia anterior continuava também presente, fazendo qualquer vestígio de esperança desaparecer.

 Desejei-lhe um bom dia sem energia mas educado, e fui puxar a sua cadeira para que se pudesse sentar. Servi-lhe um café preto forte, coloquei-lhe duas fatias de torradas barradas com manteiga a fugir pelos buracos da côdea – uma delícia só possível com um tipo de pão caseiro – e aproximei os doces e o prato da fruta que tinha acabado por arranjar ao descobrir morangos, manga, banana e ananás. Ainda fiquei uns segundos ao seu lado à espera que finalmente decidisse não me ignorar, contudo bastou o seu olhar focar-se no meu, de sobrancelha interrogativa erguida, para que quisesse sair dali o mais rápido possível em direcção à cozinha para poder comer a torrada que tinha feito para mim e beber o leite com chocolate ainda quente.

– Angelo. – Quase que caí ao ouvir aquela voz cheia de autoritarismo chamar pelo meu nome, mais grave e rouca do que o costume. Seria por estar irritado ou era por ter acordado há pouco tempo? – Estive a corrigir o que te mandei fazer ontem e estava tudo bem. O que terás de estudar hoje está na biblioteca, na mesma secretária de ontem. Quando regressar não só espero isso feito como as tarefas que te designei ontem. Estamos entendidos?

– Sim – respondi-lhe baixinho sem conseguir desviar o olhar da chávena entre as minhas mãos, com vontade de lhe fazer uma pergunta sobre algo muito importante. – Se eu precisar de orar no final do dia… eu posso?

– Achas que mereces? É que eu estou com uma enorme vontade de te negar isso. – Baixei ainda mais a cabeça, com lágrimas que não queria soltar a escorrer pela cara. Já não aguentava mais… a forma como em estava a tratar, tudo o que me pedir para fazer e proibia… era demais para mim. O que é que tinha feito de tão mal para merecer tal castigo? Porque é que o Senhor me estava a castigar de novo? – Para com isso.

– Não, o senhor quer que me transforme num robô. Mas eu não sou nenhum robô. Permitir aos outros algum livre arbítrio não é transmitir uma imagem fraca, é mostrar que se tem medo de se conceder tal liberdade. É mostrar que tem medos.

– Houve uma coisa. – Agarrou-me no braço com alguma força, a mandíbula contraída. Tentei afastar o braço, mas a sua força nem se podia comparar à minha. – Eu não tenho medo de ninguém. É uma questão de respeito, coisa que não demonstras. Sinceramente dá para perceber porque é que estavas num convento. Foram os teus pais que te mandaram para lá, não foram? Eles mimaram-te demais e arrependeram-se…

Ouvir as suas palavras envenenadas e vingativas fez abrir aquela ferida que jamais iria sarar: a morte dos meus pais. Quando dei conta, estava em pé, a fitar os seus olhos cheios de ódio. O meu coração batia tanto, tão aceleradamente… ele doía… o meu peito todo doía. A respiração era tão fraca e descontrolada que caí no chão sem força.

– Levanta-te, Angelo! – Levantei o olhar ferido para o seu rosto, mais uma vez incrédulo com a sua frieza e capacidade de, mesmo sem saber, me magoar na ferida mais aberta e profunda.

– Tudo bem… fica aí. Eu tenho mais que fazer do que estar à espera que pares com a fita. Não contes comigo para almoçar. Quando vier é bom que a casa esteja um brinco, a roupa tratada e o jardim arranjado. E não te esqueças do teu estudo.

E foi-se embora. Ainda demorei algum tempo a recompor-me, a afastar todo o sofrimento para um canto… Mas tinha demasiadas coisas para fazer em tão poucas horas para me estar a focar nas suas palavras, a única solução era ignorá-las para não voltar ao mesmo estado que no dia anterior. Agora era a altura para ser forte, para não voltar ao mesmo ciclo vicioso do passado. Era hora de acreditar em mim e na minha capacidade de enfrentar as dificuldades.

Com esse pensamento positivo em mente, levantei-me confiantemente e foquei-me no que mentalmente já tinha elaborado no dia anterior: primeiro iria tratar de limpar a casar e tratar da roupa; no final da manhã iria arranjar o jardim enquanto o meu almoço se fazia e, por fim, à tarde iria estudar.

Segui o plano minuciosamente, estando do meu lado o facto de a casa estar quase impecavelmente limpa e só demorar cerca de três horas a limpar o pó de todas as divisões, fazer as camas, aspirar e lavar o chão e lavar, secar e passar as poucas peças de roupa. Eram, portanto quase 11:30 quando pus o meu almoço a fazer e fui tratar do jardim, que para meu azar não ficou concluído antes das 13:30, que foi quando pude ir comer o meu arroz de peixe já frio. Comi o mais rapidamente possível, bebi quase meio litro de água e fui pôr o pato a cozer na panela de pressão. Ainda não tinha a certeza, mas provavelmente iria fazer arroz de pato: tinha chouriço, passas, cenouras, arroz, nozes… todos os ingredientes necessários. Era bom que o Senhor Bragatti gostasse senão estava tramado. Como o pato demorava muito tempo a cozer, dei-me ao luxo de poder arrumar a cozinha e partir para a Biblioteca, estafado e a escorrer água por ter estado a arrancar ervas daninhas e a cortar a relva com a máquina no pico de maior calor.

Claro está que não era a intensão do Senhor Bragatti me aliviar nas tarefas, por isso deixou-me em cima da mesa uma série de questões de resposta longa, de Filosofia e História para responder. História e Filosofia eram das minhas áreas de estudo preferidas, contudo sabia que para responder a uma pergunta de qualquer tema de uma delas, era preciso muito tempo senão ficava incompleto e eu detestava coisas incompletas e nada menos do que o meu melhor refletido. Não foi, portanto, surpreendente ter ficado praticamente até às 17:00 horas a consultar os livros que deixou em cima da secretária e a escrever num caderno, as melhores respostas que consegui elaborar. Só parei por volta das 15:30 para tirar o pato da panela de pressão, desfiá-lo para uma taça e guardar a mesma no frigorífico com uma folha de alumínio por cima. Voltei ao meu estudo até às 17:00. Assim que acabei de responder a todas as perguntas, arrumei tudo o que tinha desarrumado e sentei-me numa poltrona disposta num dos corredores de estantes de livros a ler um livro da J.K.Rowling, da colecção do Harry Potter. Simplesmente amava todo o mundo de magia e feiticeiros, personagens e acontecimentos que a escritora tinha criado. Havia o bem e o mal, a magia e a não-magia, a descriminação e a aceitação, o drama e o divertimento, uma família unida e outra destruturada, a vida e a morte…

Assim devo ter permanecido durante uma hora, sempre ansioso por o Senhor Bragatti ter dito anteriormente que regressaria do que chamava “trabalho” uma hora antes das que eram. A qualquer momento podia chegar e o receio de alguma coisa não estar feita ao seu gosto assombrava-me a cada segundo a linha de pensamento. Vendo-me na impossibilidade de me concentrar, pus um marcador na última página que li e arrumei-o na prateleira do género fantasioso, ao lado dos livros dos Instrumentos Mortais e Jogos da Fome. Tinha conhecimento que a primeira tinha um filme e uma nova série chamada Shadowhunters, e que a segunda tinha filmes, mas nunca tinha tido tempo para me dedicar a essas actividades como qualquer outro adolescente. Houve uma altura que senti um certo rancor para com os irmãos nesse aspecto, mas assim que percebi os motivos de uma forma mais clara, todo esse sentimento desapareceu. Ia contra os nossos princípios e votos, a nossa função era dedicar o tempo aos outros, a uma vida modesta e à oração e introspecção.

Uma vez tudo arrumado subi até ao andar de cima, para o meu quarto para tomar um banho rápido. Á saída do banho selecionei uma camisola de mangas três quartos e outras calças de fato de treino que encontrei no armário (devia de ser a paixão e obsessão daquele homem), cheio de roupas ora casuais ora desportivas. Estava a vestir as calças de fato de treino quando senti um beliscão na nádega direita. Com o susto e a dor dei um salto e um pequeno grito irrompeu pela minha garganta. Quase que me desequilibrei, as calças estavam-me um pouco acima do joelho e como podem imaginar dar um pulo assim é um safio às leis da gravidade. Para minha sorte, uma mão forte amparou-me a queda, prensando-me contra um corpo que só podia ser de uma pessoa: do dono da casa.

– Usaste o mesmo tipo de gel de banho que uso. – O seu nariz raspou levemente, de cima a baixo, o meu pescoço, cheirando-o profundamente. Todos os músculos do meu corpo se tencionaram com a aproximação excessiva e repentina. Ele não estava mais chateado comigo? – Fizeste tudo o que mandei. Bom menino.

Virou-me de frente e puxou-me as calças para cima, demorando-se especialmente quando elas tiveram que passar o meu rabo. Depois observou o meu rosto espantado durante alguns segundos até, com a mão, acariciar o meu rosto demoradamente. Não queria, não queria porque era errado e contra tudo o que tinha lutado no meu pensamento, porém fechei os olhos e deleitei-me com o seu toque suave como a seda. As lágrimas ainda me vieram ao rosto, ele já não exibia uma expressão de raiva, pesada e fechada junto de mim… era como se o que tinha dito de manhã fosse um mero fantasma feito de sopros de palavras e todas as suas ações das últimas horas uma alucinação esquizofrénica.

– Desculpe…

– Princesa, eu não te estou a desculpar. Simplesmente é hora de te habituares a receber-me de forma adequada. – Olhei-o confuso, como se pela primeira vez que não era a lua que se movia mas sim eu. A sua mão deslizou até ao meu pescoço, apertando-o com alguma força. A sua expressão fechou-se de novo, como o botão de uma flor no Inverno. – Era de esperar que estivesses lá em baixo, na sala, à minha espera, para me dares um beijo de boas vindas. Não sabias, mas podes dar-mo agora.

Ainda tentei recuar, de forma alguma iria beijá-lo! Nem pensar! Não iria quebrar o meu voto, nunca tinha beijado alguém, não ia ser agora que o ia fazer… não! O seu aperto só se intensificou com a minha tentativa de escapar, puxando-me mais em direcção ao seu rosto. Só havia uma solução, um tipo de beijo que não iria contra o meu voto: na bochecha. Não deixava de ser um beijo… Ganhei coragem, pus-me em bicos de pés e dei um pequeno beijo na sua bochecha. A barba picava!

– Não era esse tipo de beijo que tinha em mente.

– A sua mente é um sítio muito obscuro e perverso, Senhor Bragatti. Eu não o posso beijar como o senhor quer e você sabe disso.

– Angelo, Angelo… já não vives no convento. – E os seus lábios quentes e cheios de vida atacaram o meu pescoço. No início o beijo foi tão casto e inocente que apenas me fez cócegas (é eu tinha cócegas, brilhante não?) e, consequentemente soltar uma gargalhada. Depois o beijo intensificou-se e senti os seus dentes puxarem a minha pele e os lábios sucarem a zona sensível, causando-me simultaneamente uma dor e prazer inexplicáveis, tanto que um barulho estranho irrompeu involuntariamente do fundo da minha garganta. O que é que estava acontecer? Porque é que senti uma sensação tão estranha por todo o corpo fazendo cada pelinho arrepiar-se? Porque é que estava tão corado? – Não reprimas os gemidos, princesa.

– Por favor… pare… – Falei ofegante, agarrando com força o tecido da sua camisa. Ele não mordia e sugava, mas com a língua massajava a área dorida. – O que é que me está a fazer?

– A dar-te prazer. – Soltou uma risada gutural antes de mordiscar e sugar a pele perto da minha clavícula, deixando-me sem forças nas pernas. O que me safou foi ter-me agarrado ao colo, como se vê nos filmes românticos, e semideitado na cama. Sentou-se ao meu lado, afastou os cabelos que me tapavam a visão e passou o dedo grande pelos meus lábios, afastando-os pelo caminho. Fixei as suas grandes orbes oceânicas, sem conseguir reagir às suas ações carinhosas. – Descansa, hoje não precisas de tratar do jantar. Mas vi que ias fazer qualquer coisa com pato.

– Sim, arroz de pato, um prato tradicional português que aprendi a fazer no convento. Tínhamos um irmão com pais portugueses que lhe ensinaram algumas receitas. Um dia tem de experimentar outros pratos como o cozido à portuguesa, cheio de enchidos deliciosos e carnes saborosas… o arroz doce então é… nem tenho palavras. – Nem tinha reparado mas falava com tanto entusiasmo e à vontade que parecia que tinha apanhado um comboio. Falava tão rápido e com um grande sorriso: adorava cozinhar e saber sobre outras culturas. – Desculpe, entusiasmei-me um pouco.

Pus a mão à frente da boca, ele tirou-a esboçando um grande sorriso torto.

– Não, não peças desculpa por isso, Angelo. Foi a primeira vez que te vi a sorrir tanto genuinamente e a falares tão à vontade comigo. Não é assim tão difícil, pois não?

– Não fique com a impressão errada, Senhor Bragatti.

– Claro que não… – estava a ser irónico. Levantou-se, esticou-me a sua grande mão que reparei ter um grande corte. Sentei-me logo e agarrei-a para ver melhor. Aquilo estava com mau aspecto. Levantei o rosto e vi que a cara estoica tinha voltado. Só se podia ter magoado a fazer alguma coisa na… na sua organização ilegal. – Está tudo bem e não olhes assim para mim como que a pedir satisfações, porque não tas devo. É melhor levantares-te e acompanhares-me.

Levantei-me da cama, fazendo o que me estava a mandar, e segui ao seu lado de cabeça baixa. Ele caminhava depressa demais, porém nada disse. Apenas segui um pouco mais a atrás, praticamente a correr. Parámos à frente de uma sala que ainda não tinha visto até então. De dentro do bolso do seu casaco foram tiradas umas chaves, que serviram para abrir a misteriosa porta.

O que estava lá dentro surpreendeu-me tanto que me veio as lágrimas aos olhos: era um altar onde podia rezar: simples, mas com tudo o que era essencial. A sala não tinha muita iluminação, tinha apenas uma pequena janela em vitral, o ideal para poder comunicar com o Senhor. Era quase inacreditável o que se apresentava perante os meus olhos, tendo em conta que o Senhor Bragatti nos últimos dois dias nada mais tinha feito do que me desiludir e, num momento para o outro, depois de chegar do “trabalho” volta a ser brincalhão e sedutor, meigo até nalgumas ocasiões.

– Obrigado, isto é… Eu posso usar esta sala, certo?

– Sim. – Abraçou-me por trás, descansando o queixo no meu ombro. O meu cérebro dizia-me, aos gritos, para sair da sua jaula, mesmo à nossa frente estava a figura de Jesus Cristo a olhar para nós. Mas o meu corpo, o meu corpo queria ter vida própria e deixou a cabeça cair sobre o seu peito quente e confortável. Não entendia a necessidade de ter contacto físico com aquele homem e isso deixava-me com o cérebro num nó, eu nunca tinha sido uma pessoa a fim de grandes proximidades físicas por considerar que as palavras muitas vezes transmitiam o calor necessário. No entanto, as palavras que dirigia aquele homem nada tinham de calorosas, ao contrário dos meus actos cada vez mais impulsivos e necessitados. – A ironia, princesa. Aqui estamos nós, abraçados, à frente de uma figura da tua religião. Se me tivesses afastado eu não teria insistido, qual não foi a minha surpresa quando deitas-te a cabeça no meu peito, aninhado nos meus braços como um bom marido. É inegável o facto de gostares do meu toque, da minha proximidade, do meu cheiro… sim, porque quase que instintivamente foste escolher, dentro de tanto gel de banho o meu. Achas que queres voltar para aquele convento, para longe de mim? A tua vocação não é ser frade, meu doce. A tua vocação é seres meu.

– Não…

– Sim. – Virou-me para si, afagando-me os cabelos com a mão magoada. – Eu vou deixar-te a sós com o teu Deus, pode ser que te traga a iluminação que precisas. Quando o jantar estiver pronto, chamo-te.

E afastou-se e saiu da sala. Caminhei até á almofada perante o altar e ajoelhei-me de olhos fechados, mãos a agarrar um terço lá disposto em prata. Teria o Senhor Bragatti razão? Será que tudo o que sentia quando estava perto de si era mais do que aquilo que queria admitir? Bem, sabia que o seu toque me agradava e dava prazer como nunca, até porque ninguém tinha-me tocado como já ele havia feito. Os abraços dos irmãos em nada se poderiam comparar à forma como os braços do Senhor Bragatti envolviam a minha figura – os dos irmãos eram como os dos meus pais, o do Don da Cosa Nostra não sei… fazia toda a minha pele e pelinhos arrepiarem-se, o meu coração bater depressa, a minha respiração descontrolar-se, o rubor tomar conta das minhas faces. Além do mais jamais poderia negar que a forma como me tinha tratado no dia anterior e de manhã me havia magoado de uma forma estranha. Não queria que se desinteressasse pelo meu bem-estar, que me tratasse como seu escravo, que me batesse quando entrássemos em desacordo. Queria tanto vê-lo a sorrir, a ser carinhoso e compreensivo. Queria, mais do que queria admitir, que me provocasse e dissesse todas aquelas coisas que não compreendia, mas sabia serem algo perversas pela forma como sorria. Se isso não era um sentimento superior, o que era então? Era como nos livros de romances que às vezes lia quando ninguém via. A diferença era que eu não sentia todas aquelas coisas por uma mulher mas sim por um homem. Como no convento o frade Giovanni sempre tinha-me ensinado que todas as formas de amor são bonitas e devem ser respeitadas, nada disso me parecia errado como para alguns frades que de vez em quando visitavam o convento. Por isso, só podia concluir que o que sentia era paixão. Abri os olhos, olhei para Jesus Cristo e pedi mil vezes desculpa. O frade Giovanni iria ficar desiludido… Estava a quebrar os votos de uma forma que me fazia partir o coração. Ser mais forte do que o sentimento que desabrochava no meu coração era imperativo, e cá estava eu a deixá-lo crescer e crescer como um girassol. Devia de voltar para o convento para poder descansar as almas de quem me tinha cuidado e educado desde a morte dos meus pais e explicar que aquele estilo de vida não era o certo para mim, porque estava apaixonado por alguém… um alguém que cometia actos horrorosos. Como iria explicar a situação sem os pôr em perigo? Essa era outra questão. Estava disposto a viver com alguém assim? Com alguém que não sabia os limites da maldade e prazer em ver os outros sofrer? Com alguém que tinha a capacidade de me magoar e que já o tinha feito várias vezes? Isso era o que queria, permanecer na sombra da sua figura coordenadora de uma organização ilegal e mafiosa?

Bati com o punho cerrado no chão, com as lágrimas a escorrerem como cursos de água. Tantas perguntas sem resposta e tantas decisões para tomar.

– Eu não o posso amar…

– Meu anjo… Finalmente a admitir os seus sentimentos negando-os. – Nem tinha ouvido a porta a abrir-se. – Isso deve-me deixar contente ou magoado, Angelo?

– Eu quero voltar para o convento.

– Não, meu querido, isso não vai acontecer. Porque é que havias de querer voltar precisamente quando admites que afinal estás apaixonado por mim? Há alguma razão que me faça deixar ir o meu futuro marido?

– Eu posso estar apaixonado por si, mas nada disso anula a pessoa que você é. Eu quero poder voltar ao convento para dizer que não sou digno de receber o título de frade, que quebro a cada segundo que o amo os votos que jurei cumprir. Para desiludir a pessoa que menos merece ser desiludida. Mas eu não voltarei depois para o pé de si, porque não quero permanecer na sombra de um ser humano que sente prazer ao ver os outros sofrer, que já me mostrou ser capaz de me magoar. Eu não quero viver preso a uma vida clandestina, quero poder arranjar um emprego, uma casa e ir para a universidade. Quiçá não descubra alguém melhor para mim.

– O melhor para nós não é a perfeição. – Falou rudemente, com os olhos em chamas. – O melhor para ti sou eu. Nem penses que te deixarei sair do pé de mim. Amanhã irás escrever uma carta para o convento a dizer que não regressarás ao convento porque descobriste a felicidade do amor. Vais dizer que não voltarás mais, que foste para outro país viver o amor. Diz para eles não se preocuparem, agradeces-lhes a hospitalidade e tudo o que fizeram por ti… Assunto resolvido. Se fizeres isso, a segurança de todos os teus irmãos está garantida. Se te recusares a fazer isso, o desejo da morte irá aterroriza-los até ao final das suas existências desesperantes.

– Não! – Gritei em desespero, levantando-me do chão e parando mesmo à sua frente. – Não… você é…

– Eu cumpro o que prometo, sejam coisas boas ou más. Angelo. Amanhã de manhã quero a carta em cima da secretária da biblioteca. Todas as ações têm consequências, já to tinha dito antes. Se escreveres a carta, os frades ficarão em segurança, não terás de tratar da minha casa, do jardim e das refeições e darei a oportunidade de algures durante a semana saíres comigo daqui de casa, para irmos jantar a um restaurante, passear por um jardim… O Valentino também está ansioso por voltar a ver-te. Aquele melga continua chateado comigo. Tem sorte em ser o meu melhor amigo. Vamos jantar.

 

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