Capítulo IV

Se Eu Pudesse Trincar a Terra Toda

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento …
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva …
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de
que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica…
Assim é e assim seja …

Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema XXI”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Há minutos e minutos que estava com a caneta na mão a escrever a carta para os irmãos. Quando finalmente consegui escrever algo que fosse um leitor do cruzamento entre o que o senhor Bragatti queria que escrevesse e o que eu próprio sentia, agarrei-a com as mãos a tremelicar, pronto para a reler e enviar.

“ Querido Frade Giovanni,

Sei que deve estar á minha procura desesperadamente, com um peso no coração por sentir que está a deixar os seus melhores amigos desiludidos. Não se sinta assim, porque essa desilusão só deve vir de si para mim. Eu não fui raptado, ou perdi-me, na verdade acho que me achei. Seria hipocrisia continuar a viver debaixo do teto que me acolheu depois daquele dia fatídico. Debaixo do teto que me deu amor incondicional… Sei que era o que estava escrito, que era ao pé de todos vós que deveria crescer, mas nunca senti que me educar e amar era uma obrigação. Amaram-me e educaram-me segundo os valores e obrigações franciscanas que tanto procurei seguir, porque senti que também esse era o meu caminho. Um caminho iluminado pelas virtudes da simplicidade e dedicação aos demais, um caminho altruísta e introspetivo, virado para total dedicação ao nosso Criador. Esse seria o caminho ideal e que almejava, no entanto penso não corresponder ao caminho que Deus desenhou para mim. O meu coração é habitado por um forte sentimento que jamais havia compreendido, porque jamais o havia sentido: o amor romântico. Essa é a razão pela qual não poderia ficar mais no convento, a quebrar os meus votos e a desrespeitá-lo e aos irmãos. Sei que vai compreender esta minha decisão, que lhe parece no momento revoltante e precipitada. Mas agora é o momento de eu ganhar asas e de poder viver uma vida plena com quem amo, aqui e em qualquer lugar. Talvez um dia consiga voltar às minhas origens e não ser covarde. Isto não é um adeus, é um até já. Só queria dizer no entretanto, o quanto o amo a si e aos irmãos e que lamento não ser mais forte do que este fogo que percorre o meu corpo e ser.

Mil desculpas e perdões acompanhadas por um agradecimento eterno,

Da sua pupila, Angelo”

Depois de ler aquelas palavras vezes sem conta, desiludido comigo próprio, levantei-me da cadeira e fui até ao jardim ver o sol se levantar. Ainda era muito cedo, eram 5:30 da manhã. Pus-me debaixo de uma árvore típica do Mediterrâneo – o Pinheiro Manso. O frade Giovanni tinha como hábito, na Primavera e no Verão, rezar debaixo do antigo Pinheiro Manso do jardim do convento, com mais de 30 metros de altura. A copa da árvore era ideal para fazer sombras. Mas como uma vez me dissera numa aula, esta árvore não era boa apenas pela sua sombra, tinha outras qualidades admiráveis: a sua madeira, como tem muita resina, é flexível e resistente à água, é largamente aproveitada. Nos Descobrimentos Portugueses, explicou-me que fora usada na nau que dobrara o que outrora se chamava Cabo das Tormentas, mas que depois de Bartolomeu Dias o dobrar em 1488 ficou conhecido como o Cabo da Boa Esperança.

Semideitado e com as costas encostadas ao tronco, concentrado apenas na beleza do amanhecer. Queria tanto esquecer tudo o que não fosse aquele exato momento glorioso de relaxamento…

Ali permaneci durante um período de tempo indefinido, a captar dos meus sentidos o que eles e a mãe natureza me davam: os primeiros raios luminosos do dia naquela zona de Roma, em Itália, o cantarolar constante e grupal dos pássaros, a brisa a agitar as folhas dos arbustos e árvores, a água a cair na fonte mais á frente… Porque é que a vida tinha de ser mais complexa do que só nos deixarmos guiar pelos sentidos? Porque é que não poderia ficar ali para sempre? Essa era a majestosa intenção do poeta Fernando Pessoa ao criar a personagem Alberto Caeiro – o poeta das sensações.

Quando ganhei coragem e me levantei para ir até à cozinha preparar o pequeno-almoço, o mesmo já estava pronto e a mesa posta para duas pessoas – para mim e para o Senhor Bragatti. Sentei-me no banco alto da ilha, com as mãos no colo. Algo me dizia que se começasse a comer antes dele descer, que isso me traria ainda mais problemas, portanto nada mais me restava senão aguardar com o coração praticamente na boca.

Qual não foi o meu espanto quando nem meio minuto depois o vi entrar pela porta da cozinha, num estilo casual: umas calças de ganga clarinhas, uma t-shirt preta e uns ténis brancos. Não tinha sido o único a madrugar.

– Bom dia, Angelo. – Caminhou calmamente até mim, girou a minha cadeira e deu-me um beijo na bochecha prolongado. Cada movimento fluído, dançado, o antónimo da rigidez que quase sempre era o costume das suas expressões. O que me incomodava era precisamente esse fio entre a fluidez e a quase expressão artística e tornar-se tão mortífero como a Mestre Garça do Panda do Kung Fu no ataque. Para sua sorte, o seu perfume viciante distraiu-me, tal como a pele tão macia como antes, o hálito do mentol tão refrescante como tinha sido gravado na minha memória… mas nada disso anulava o facto de me ter obrigado a escrever a carta para o convento. – Não vamos começar mal o dia, meu querido. Já tratei de a tua carta ser entregue, não me aborreças com essa atitude. Quando te cumprimento com um bom dia e um beijo, espero que o faças também. Essas são as regras de boa educação.

– Bom dia. – Falei num mero murmuro e estiquei-me para dar um rápido beijo na sua bochecha. Depois virei a cadeira e beberiquei um pouco do café ainda fumegante, com um olhar atento às suas próximas ações. Sentou-se ao meu lado, com a cadeira virada para a minha. 

– Angelo pára com isso. Não te vou admitir essa falta de respeito. Pede desculpas. – E virou a minha cadeira outra vez, dessa vez com força e obrigando-me a agarrar-me à bancada de granito preta para não cair. O seu rosto era um pimento com orelhas a deitar fumo de raiva. Quanta admiração a minha por essa ser a sua reação… – Agora.

– Você não merece nenhum pedido de desculpas. Sabe perfeitamente porque é que o estou a tratar assim e se quer saber tenho todas as razões para o fazer. Como é que quer que aja depois de ter enviado aquela carta aos irmãos? Eu vou ficar aqui enclausurado… a viver esta vida miserável de consciência pesada. A viver uma vida ao lado de uma pessoa vil.

– Vou fingir que não ouvi isso, Angelo. Espero que quando regresse à hora de almoço, um pedido de desculpas abandone esses lábios vermelhos. Até lá podes estudar, usar a piscina, passear pelo jardim… Não te quero fechado nem no teu quarto, nem no altar que mandei construir para tu orares. Até já.

Levantou-se do banco, aproximou-se e deu-me outro beijo, dessa vez na testa, em forma de despedida. Fiquei sentado até o ver ir embora, com a crescente sensação de a casa ser demasiado grande e um sentimento de solidão. Era verdade que podia ir fazer todas as coisas que o Senhor Bragatti me tinha falado, porém estava praticamente sozinho, as pessoas presentes não estavam ali para me fazer companhia como as damas de companhia da Idade Média (e se estivessem nunca o permitiria) mas sim para limpar, cozinhar e vigiar, a casa e a mim.

Como mais cedo tinha ido passear pelo jardim, decidi que o melhor era tratar logo do que tinha para estudar. Surpreendentemente, só tinha três exercícios de Matemática, os quais resolvi com relativa facilidade e rapidez. Sobrando-me tempo lembrei-me da possibilidade de ir nadar para a piscina. Há muito tempo que não ia a uma e a última vez que o tinha feito tinha sido no que se chama uma piscina natural, desde o Verão anterior. Todos os anos os irmãos organizavam uma espécie de retiro e, dessa vez, foi no meio duma floresta com uma enorme biodiversidade e uma cascata e riacho que poderiam ser consideradas a 8º Maravilha do Mundo. Jamais vira algo tão bonito e jamais me sentira tão relaxado, conseguia passar horas e horas a refletir sobre as questões mais básicas da vida e do Mundo, minhas e dos que me rodeavam. E esse era o objectivo principal do retiro. Fora a primeira vez que participara e foi então que percebi a importância que tal acontecimento tinha para todos os irmãos. Era uma forma de escapar ao dia-a-dia vivido numa cidade, ainda que sem sair do convento, e em que o próprio lugar é propício à reflexão, sensação de paz e orações. Não era nenhum exagero dizer que, sentado numa rocha, passava o dia sentado a orar e a falar com o Senhor.

Todas estas recordações afluíram-me à memória no momento em que despi todas as minhas roupas, com excepção para as de interior. Ainda que o sol brilhasse muito e a temperatura ultrapassasse os 30ºC, receava que a água translúcida estivesse fria. Com cautela e pelas escadas dispostas, experimentei emergir apenas um pé. Qual não foi o meu espanto quando percebi que a água estava à temperatura ambiente… era uma piscina de água aquecida. Com a curiosidade a aflorar, entrei na água que, mesmo na parte mais baixa, dava-me pela cintura. Avancei só mais um pouco para poder mergulhar e ficar a boiar por uns minutos… até ouvir alguém gritar, quase imperceptivalmente. Depressa emergi, pus-me direito, e olhei em direção ao imponente edifício. A voz que gritava pelo meu nome era inconfundível e só poderia ser de uma pessoa (nada paciente, por sua vez). Com alguma pena e a revirar os olhos, saí da água e caminhei até à janela aberta da sala de estar. Como não queria pingar o chão, que sabia ser difícil de lavar, decidi responder ao chamamento do Senhor Bragatti dali mesmo.

– Na sala de estar! – Como odiava gritar… um perfeito pífaro com cordas vocais. Ao menos foi eficaz, porque segundos depois vi a sua figura tempestiva surgir. Estava para gritar comigo quando congelou no lugar a olhar para mim, as pupilas dilatadas e a iris mais escura. – Na piscina, eu estava na piscina e não dei pelo tempo passar…

– Pensei que tivesses fugido daqui, de mim.

– Não tentaria uma coisa dessas.

– Às vezes o desespero torna a nossa racionalidade nublada. Outras vezes é o desejo… – Aproximou-se de mim, passo após passo, até ficar a poucos centímetros de distância do meu rosto e corpo molhado. Tentei recuar, mas a sua mão espalmou-se por completo e com vontade no meu rabo, agarrando-o com força e trazendo-me para junto de si. A minha cara ficou literalmente enterrada na sua camisa, no seu peito, a ouvir o batimento cardíaco acelerado e ritmado. – Há algum tempo que ansiava fazer isto.

– Você está a esmagar-me e a deixar embaraçado.

– É hora de deixares de sentires vergonhar pelo que sentes, Angelo. E quando eu faço isto… – Apertou de novo a minha nádega com força, fazendo-me soltar um pequeno e fino grito. – Tu gostas, aliás o teu amiguinho aqui em baixo está a ser bem expressivo.

Olhei-o confuso, mas segui com o olhar a sua outra mão que foi descendo da minha cintura até ao meu… o que é que ele estava a fazer? Com uma força que desconhecia, afastei-o e tapei o meu… o meu pénis com as mãos à frente. Não sabia o que é que se tinha passado, mas sentia um pouco de dor ali, como quando às vezes acordava no convento depois de ter sonhos estranhos. Nunca tinha tido coragem de perguntar ao frade Giovanni o porquê do meu pénis ficar tão duro depois desses sonhos… por alguma razão sentia alguma vergonha, como se fosse mau.

– O que é que você pensa que está a fazer? – Falei indignado e envergonhado. – Não me pode tocar assim.

Apenas riu-se antes de afrouxar a gravata, guardá-la num dos bolsos das calças, despir a camisa e entregar-ma. Ainda fiquei uns segundos fixado no seu peito sem pêlos e definido, mas depois acordei do estado adormecido e vesti a camisa. Ficava-me um pouco grande, até meio das coxas, mas definitivamente dava-me o conforto que ansiava.

– A tua inocência ainda me mata um dia, Angelo. Vamos almoçar, estou esfomeado.

Segui-o até à sala de jantar, ainda com uma réstia de certeza que aquela frase escondia significados que não compreendia, como o latim de livros antigos de orações. A diferença era que tinha a certeza que aquele mistério não estava circundado da pureza das orações.

O almoço estava a ser servido por uma das empregadas. O Senhor Bragatti cumprimentou-a, a senhora não era jovem, nem anciã, mas devia de ter idade para ser nossa mãe. E pela forma como ele sorriu e deu um beijo na cara da senhora baixinha e franzina, ela devia de trabalhar naquela casa há alguns anos.

Antes de ele se sentar no topo da mesa, puxou-me a cadeira do seu lado esquerdo. Também agarrou no meu prato e serviu-me um pouco do Risoto de Milão, de aspecto e cheiro maravilhosos. Só então é que se sentou e serviu-se. Por uns segundos a sua ação teletransportou-me até às memórias da minha infância, em que o frade Giovanni me servia porque ainda não tinha a noção do que conseguia e não conseguia comer. Esperei que o Senhor Bragatti começasse a comer para também o fazer, era assim que fazia no convento – só começava a comer quando o irmão mais velho o fazia. Nesse intervalo de tempo reparei que na mesa também tínhamos cestos de pão caseiro, cozidos a lenha, duas jarras – uma de água cristalina e outra de sumo de laranja – e uma garrafa de vinho.

– Amanhã o Valentino vem jantar connosco. Dependendo do teu comportamento, poderemos num dia desta semana, de manhã, sair e tomar o pequeno-almoço numa pastelaria muito boa que conheço, passear um pouco pela cidade…  

– A sério? – Perguntei de novo, para ter a certeza que estava a ouvir bem. Quero dizer, há quantos dias não saía daquela casa? Há três dias? Aceitaria, nem que fosse nas suas condições – Tem a certeza?

– Claro que tenho. – E o toque que reconheci ser de um telemóvel interrompeu a nossa conversa, desviando ambas as atenções. Confesso que nunca tinha visto um de tão perto, por isso fiquei impressionado quando vi o aparelho ser retirado do bolso das suas calças, preto e de uma espessura ridiculamente pequena. O ecrã devia de ser tátil porque não tinha teclado, o que indicava que era moderno e possivelmente de última geração (e preço exorbitante) – Claro que sim suas abéculas ignorantes! Desde quando eu deixo entrar qualquer um? Têm exactamente uma hora para me darem todas as informações sobre esse homem. Se eu o aprovar, o ritual de iniciação será ainda amanhã ou no dia a seguir. Estejam preparados!

Ritual de iniciação? Porque é que tudo o que tinha a ver com rituais deixava-me sempre nervoso? Bem, tendo pensado que o Frade Giovanni me tinha contado algumas histórias verdadeiramente arrepiantes sobre rituais, não admirava. Na Ilha de Madagáscar desenterram os mortos e numa cerimónia chamada Famadihana, alguém é escolhido para tirar o defunto do túmulo e, levando esse corpo até às povoações, no meio de danças e canções, os líderes religiosos dão-lhe as notícias desde que morreu, pedindo a sua bênção. Mas nada me arrepiava tanto quanto o ritual dos islamitas xiitas. Eles honram Hussein, morto pelas tropas do califa Yazid no ano de 680, em Karbala. Numa procissão, eles caminham sob fogo e cortam e golpeiam a pele – um acto de autoflagelação. Portanto, sabendo da existência de rituais tão… indiscritíveis, tinha medo de qual seria o necessário para se entrar numa máfia como a Cosa Nostra.

Mesmo que o Senhor Bragatti se tivesse levantado, visivelmente irritado com toda a situação, virado de costas a inspirar e expirar pesadamente para se acalmar, a curiosidade matava-me como poderia o fazer a um pequeno gatinho indefeso e eu tive de me levantar e interroga-lo sobre essa situação. Dado o seu estado de humor, delicadamente pus uma mão sobre o seu ombro, em sinal para se virar na minha direção. Eu vi a súbita raiva esconder-se noutro canto do seu coração e a surpresa nas suas expressões dar espaço para emoções mais positivas, ou não, porque existia a forte possibilidade dele se chatear com mais uma das minhas questões intrusivas.

– Hm… Que ritual é esse? Eu não pude deixar de ouvir a sua conversa, peço desculpa. – Falei num tom calmo e baixo, com bastante cautela. – O ritual de iniciação?

– Meu querido… – colocou as suas grandes e suaves mãos de cheiro a creme para mãos. Elas não faziam pressão, apenas estavam colocadas… num acto de carinho? – Quase que consigo imaginar os terríveis cenários que a tua maravilhosa mente magericou, mas o ritual de iniciação da Cosa Nostra não é nada de especial. E eu estou a falar a verdade.

– Então pode me contar.

– Não, não posso. – Largou o meu rosto e voltou a virar-se, inquieto com a minha exigência. – Eu não te quero metido nos assuntos da máfia e isso é um ponto que pensei que estivesse definitivo. A única pessoa que poderás conhecer é o Valentino, o meu braço direito, por ser meu melhor amigo, mas para lá disso tudo o que oiças ou possas vir a ouvir quero que esqueças.

  – Claro, eu vou passar o resto da minha vida a ignorar tudo. Tenho uma ideia: cole uns pedaços de corda ao meu corpo e manipule-me para fazer exactamente o que o senhor quer, nos sítios que quer. – Fiz os gestos, para explicar melhor, afastando-me da sua figura que se tinha virado de novo, de braços cruzados e sorriso ladino. Isso irritou-me ainda mais. – É assim, que costuma funcionar um espetáculo de fantoches. Com a sua licença, eu vou para um dos sítios desta masmorra, o meu quarto.

Virei-lhe as costas e, com o propósito dos meus passos serem ouvidos, subi as escadas prestes a rebentar de nervos como um balão de pó de tinta. Bati a pobre porta do meu quarto, que era uma inocente no meio de tudo, e fui direto para a varanda respirando o quente ar floral de Verão. Ainda não tinha reparado, mas a floresta para lá da mansão do Senhor Bragatti parecia linda, várias tonalidades de verde contínua. O verde, a cor da natureza, do crescimento, da renovação, da plenitude… da liberdade. De um certo modo, acalmou-me ver aquele manto de verde. Sim, a vivacidade de cores das flores lindas e diversas do jardim deveria trazer-me felicidade, mas quase de imediato olhei para lá desses pequenos e delicados seres vivos. Mais tarde, quando estivesse mais calmo iria, por certo, passear pelos caminhos de grande extensão, com placas com os seus nomes em latim e italiano. É que além do jardim comum, tinha reparado que depois do campo de golfe e de ténis, havia um arco de trepadeiras, com essas fileiras ainda por descobrir. Aquilo era um Mundo por descobrir, sentia-me os grandes Físicos a cogitar acerca dos Universos paralelos e da extensão do qual conhecemos.

Talvez levasse um bloco de notas e uma caneta para apontar o nome das flores e plantas que mais gostasse, para poder investigar sobre elas na imensa biblioteca. Decerto que teria uma seção só acerca de botânica.

– Angelo, pareces um gatinho zangado e eu prefiro ignorar a forma como me falaste antes que repense na promessa que te fiz acerca de sairmos num dia desta semana. – Parou ao meu lado, com os braços também pousados no muro. O seu olhar não ia tão longe quanto o meu, pelo menos essa era a percepção que vinha da minha visão periférica. – Eu volto, à hora do costume.

A sua aproximação e forma como me puxou para o meio dos seus braços, encostando a minha cabeça ao seu peito, fazendo-me inevitavelmente ouvir a batida tamborina do seu coração, já não me causava uma reação de aversão ou estranheza. Eu queria ficar ali para sempre e queria esquecer que o meu príncipe também era um cavaleiro das Trevas, prestes a voltar para a sua organização mafiosa, para um ritual de iniciação. A única coisa que me restava fazer era orar pela alma dos que iriam sofrer e desviar-se de um caminho que poderia ser tão diferente… Pelo pouco que sabia das máfias eles são, por vezes, a única alternativa de muitos homens, uma alternativa que tinha um forte sentido de hierarquia e uma aversão à polícia. Talvez devesse pesquisar sobre o assunto, viver com a cabeça enterrada na areia não iria proteger o resto do meu corpo. E o resto do meu corpo também era feito de átomos que transportavam a minha alma. Sem dúvida que uma tarde a passear no jardim para além do arco seria uma forma maravilhosa e prazerosa de passar a tarde e de certeza que pesquisaria acerca de botânica com o maior dos prazeres, mas a minha motivação naquele momento era um pouco diferente. Não me iria causar prazer, mas era necessária a actividade de pesquisa. Estava decidido o destino da minha derradeira tarde.

– Quase que consigo ouvir a locomotiva do teu cérebro, meu anjo. E o fumo sinaleiro não costuma ser portador de boas notícias. Eu quero que relaxes, princesa, eu quero que te sintas em casa. Tens muito com que te entreter e eu acho que já deste conta disso. Eu quero ver felicidade genuína quando voltar, porque aqueles incompetentes hoje vão-me dar cabo do resto da minha paciência e sanidade. Preciso de alguém que mas devolva.

– Não sei se serei a pessoa certa para isso, mas irei pedir ao Nosso Senhor alguma piedade com a sua triste e pobre alma cinzenta.

O seu riso, que ecoou através dos nossos corpos, era um riso tenso, mas não deixava de ser um riso a forma como se despediu de mim e me largou. Não me mexi logo, não, isso seria demasiado suspeito. Ele ainda teria que ir vestir uma parte de cima, e eu algo decente para andar por casa. A sua camisa não era, de todo, o mais adequado, tanto que ao passar pela janela e virar-se subitamente para mim, olhou directamente para o meu rabo, com uma expressão de pura luxúria, que me fez corar até à ponta das orelhas. Depois vi-o desaparecer e escolhi uma t-shirt e uns calções. Fui num instante à casa de banho, lavei as mãos e a cara e consertei o meu cabelo já seco e completamente despenteado.

Deixando passar uns minutos, o primeiro sítio ao qual me dirigi foi à biblioteca. Por vezes, com o auxílio das escadas tirava um livro. Coloquei todos eles em cima da secretária e sentei-me. Fui lendo e lendo. Primeiro li acerca da máfia em geral e o que encontrei acerca disso foi uma divisão quanto às suas origens. Havia quem dissesse que a máfia datasse do ano de 1282, aquando da Invasão Francesa na Sicília (uma região autónoma da Itália) se dizia “Morte Alla Francia Italia Anela” (morte aos franceses é desejo da Itália). Contudo, posteriormente máfia passou a ser sinónimo de virilidade. Outros achavam que surgiu no século IX, quando Sicília era governada na base da opressão pelos árabes, e começaram a fugir. Ou então, no início do século IX, os sicilianos, governados pelos Árabes e sentindo-se oprimidos procuraram refúgio. Posteriormente a Sicília foi invadida pelos normandos no século XI e novamente o seu povo foi submetido à opressão e trabalho forçado, no século XII pelos franceses, no século XIII pelos Espanhóis e depois pelos Alemães, Austríacos e Gregos, o que obrigou o povo nativo a procurar refúgio nas colinas da ilha. Por isso, a palavra máfia em árabe ser sinónimo de refúgio. Desses refúgios nasceu uma sociedade secreta que respeitava os antepassados e costumes sicilianos, com uma hierarquia muito rígida e parecida com a de uma família. Os dons eram, então, os chefes de família e responsáveis pelo refúgio da sua aldeia e respondiam ao chefe que era o Don supremo, a viver em Palermo (capital). Já na altura os membros destas organizações eram obrigados a fazer um juramento de iniciação, em que prometiam: nunca contar nada acerca da máfia (o código de silêncio), obedecer ao chefe, apoiar qualquer que fosse o membro, vingar-se de todos os ataques contra a organização e, por último, evitar o contacto com as autoridades. E foi deste modo que a máfia foi crescendo até ao século XIX, quando já era uma sociedade grande que cometia alguns delitos. Por mais incrível ou estúpido que parecesse as suas origens pareciam-me bem-intencionadas, mas o modo como se iam desenvolvendo fez-me rever a minha conclusão demasiado inocente. Portanto, continuei a ler, até porque a ideia de pequenos delitos não era a imagem, de todo, que tinha da máfia. E foi precisamente avançando no século XIX que percebi algumas coisas.

Foi nesse século, após a Revolução de 1848 e a sua consequência, o Ressurgimento, que permitiu unificar o nosso país, até então um conjunto de pequenos Estados submetidos a potências estrangeiras, o caos se instalou. Os mafiosos, separados em pequenos grupos de bandidos, ofereceram as suas armas com a intenção de limpar os seus cadastros e provas. Tendo-se o governo estabelecido em Roma, as suas intenções não passaram disso e tiveram que recorrer a técnicas mais refinadas. Além do mais, acabaram por beneficiar do Ressurgimento e da anexação de Sicília ao Estado Italiano, uma vez que o Papa de então encorajou os católicos a não cooperarem com o Estado. Sendo que os sicilianos eram fortemente católicos, a máfia aproveitou-se dessa crença para e dos conflitos entre a Igreja e o próprio Estado para convencer também os locais que darem-se com policiais era uma atitude pecaminosa.

Para dificultar ainda mais as coisas ao nosso Estado, no sul da Itália, no meio da miséria, muitos lavradores que tinham donos feudais poderosos, foram alvo de intensas acções de vandalismo com o objectivo dessas terras serem vendidas. Assim, entrou a máfia mais uma vez como solução à venda das terras, propôs uma espécie de negócio: para que as terras não fossem vendidas deveriam chegar a acordo com uma organização criminosa. Palermo era, de início, o enfoque das actividades que se prolongaram pelo Oeste da Ilha. Contudo esta espécie de negócio envolvia roubo de gado, cobrança de taxas pela proteção oferecida e o suborno da polícia. Também foi nesta altura que a Cosa Nostra adotou alguns rituais maçónicos como a cerimónia de iniciação. Entretanto, com a Era Fascista de Mussolini e com o prefeito de Palerma a perseguir a máfia, estas organizações foram obrigadas a fugir, dando-se então a sua proliferação a outros países, como os EUA. 

Depois da abolição do fascismo na Itália, as organizações mafiosas só voltaram a recuperar o seu poder depois da rendição do país na II Guerra Mundial. A própria rendição só foi possível graças a mafiosos presos nos EUA que deram informações cruciais para a entrada das tropas americanas no país. Em troca, Luciano, um dos mafiosos, podia controlar a sua organização mafiosa e mais tarde foi solto.

De início, as máfias apenas se dedicavam ao contrabando de cigarros e contratação de pistoleiros para defender as terras que tinham prometido defender. Contudo, depois da década de 1980, uma década de grandes conflitos na máfia, em que todos os que tivessem poder público e não convergissem com os ideais mafiosos eram mortos, preocupando assim procurados e juízes. Após várias investigações, chegou-se à conclusão que o nosso povo protegia os mafiosos, tanto por ser um risco demasiado elevado a discordância, como também pelo lucro. Acabou por prevalecer uma nova geração que se dedicava a crimes de colarinho branco em função dos mais tradicionais. Foi, então, que o poder da máfia se proliferou como nunca para a esfera do poder público e, em seguimento disso se realizou a operação “Mãos Limpas”. 

Ler todo um resumo da história da máfia deixou-me por certo mais esclarecido, fiquei a saber as suas origens, o seu desenvolvimento, o que faziam em concreto… Mas ainda não era o suficiente eu precisava de saber mais acerca da Cosa Nostra, afinal o Senhor Bragatti era o Don actual. Eu precisava de saber o seu funcionamento e as suas origens, os seus costumes e como é que a pessoa com a qual vivia se tinha tornado um mafioso e chefe de uma organização tão… pouco virtuosa. Mas continuando a procurar e a procurar, nada encontrava ali acerca da Cosa Nostra. Sim, via títulos de outras muito importantes como a Calábria e a Camorra, contudo nada do que procurava… Até que me lembrei do escritório proibido do Senhor Bragatti. Se era arriscado? Era, mas valia a pena correr o risco, ainda tinha algum tempo. Por essa razão, andei de porta em porta até uma que tentei milhentas vezes e não abria. Tentei empurrar, dar um pontapé a achar que subitamente era um samurai e ainda fui buscar um clipe à biblioteca… Nada resultou, estava trancada a sete chaves.

Anúncios